AMIZADE NOS ANIMES – ARISTÓTELES

Uma coisa que chama bastante atenção em muitos animes e mangás é a importância que eles dão à amizade, seja a amizade familiar, como é o caso dos irmãos Alphonse e Edward em Fullmetal Alchemist, ou entre amigos que possuem um objetivo em comum, por exemplo, o grupo de amigos em Bleach que tentam salvar sua amiga Rukia, ou aqueles amigos que se ajudam para que cada um possa alcançar o seu objetivo ou sonho de vida, o que é o caso dos objetivos que cada integrante do bando do chapéu de palha possui em One Piece.

Para explicar melhor a questão da amizade nos animes e mangás, utilizaremos aqui as definições de amizade que o filósofo grego Aristóteles apresentou no livro VIII de Ética a Nicômaco. Para Aristóteles, todo homem deseja buscar a felicidade, que é o bem supremo, e devemos buscar esta felicidade não através de prazeres, honra ou riqueza, mas sim através da atividade da razão, assim, “o bem do homem consiste em uma atividade da alma segundo a sua virtude”. E pode-se dizer que a amizade é uma virtude, sendo ela essencial à vida, “porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens”, como disse Aristóteles.

Segundo Aristóteles, para os jovens, a amizade ajuda a evitar os erros, ou pelo menos tentar evitar os erros. A exemplo, temos a amizade entre Killua e Gon em Hunter x Hunter. Aos idosos, a amizade ajuda a atender as suas necessidades e suprir as atividades que declinam devido os efeitos dos anos, em outro exemplo de Hunter x Hunter, temos a amizade entre Zeno e Netero, mesmo sabendo que, para os entendedores, Netero é bem mais velho que Zeno. E, segundo Aristóteles, “para àqueles que estão em pleno vigor da idade, a amizade os estimula a prática de belas ações”, pois na amizade as pessoas são mais capazes de agir e de pensar. Para ilustrar, podemos falar da amizade entre Ken e Ryu em Street Fighter II, na qual eles sempre procuram fazer o bem em qualquer lugar em que estejam. Portanto, para Aristóteles, acredita-se que, quando existe a amizade entre as pessoas, estes não necessitam de justiça, enquanto que, por mais que uma pessoa seja justa, ainda sim ela precisa da amizade, e podemos ver que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.

Percebe-se que, conforme Aristóteles, aqueles que criam sentem uma afeição natural para com os que são criados, assim como também os criados pelos seus criadores, o que visualizamos muito bem em todo o carinho e a atenção que a família Kusakabe têm entre eles no clássico “Meu Amigo Totoro”, onde todos os membros da família cuidam e protegem uns aos outros sempre.

Aristóteles define três espécies de amizade: a útil, a agradável e a perfeita.

Na amizade como utilidade, para Aristóteles, os amigos “não se amam por si mesmos, mas em virtude de algum bem que recebem um do outro”, como é o caso da amizade entre Griffith e Gatts ou o bando do falcão em Berserk, da qual não vou entrar em detalhes para não dar spoilers aqui, mas para quem já assistiu sabe do que estou falando.

Já na amizade agradável, os amigos se amam por causa do prazer, e se amam em virtude do que é agradável a eles, e não na medida que o outro é a pessoa amada. Podemos ilustrar esse tipo e amizade com o exemplo dos sete pecados capitais em Nanatsu no Taizai. Nesse anime, os integrantes criam laços porque o outro lhe proporciona um certo prazer em sua companhia, através de um benefício egocêntrico, sem pensar no bem do outro, mas apenas no próprio bem. Segundo Aristóteles, amizades que tem em vista o útil e agradável são dissolvidas facilmente, pois são acidentais e mudam constantemente.

Já a terceira amizade, de acordo com Aristóteles, é a verdadeira e perfeita amizade, pois trata-se daqueles que são bons e semelhantes em termos de virtude, pois estes desejam igualmente bem um ao outro, sendo eles assim bons em si mesmos. As pessoas que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos mostram a sua verdadeira amizade, pois elas o fazem em razão da sua própria natureza, e não por acidente. E essa amizade verdadeira dura enquanto essas pessoas forem boas, e a bondade é uma coisa duradoura. Essa amizade perfeita é irrestritamente boa, e por ser reciprocamente agradável e útil, ela se torna duradoura.

Mas amizades assim são raras, pois estes tipos de seres humanos também são raros, e este tipo de amizade exige tempo e intimidade, pois elas só podem ser amigas depois que tiverem, como diz o provérbio, “provado sal juntos”. Um exemplo clássico é a amizade entre Goku e Kuririn nas séries Dragon Ball, que, depois de muitas batalhas, mortes e aventuras juntos, é que eles podem se considerar verdadeiros amigos. Na amizade perfeita, os amigos só podem aceitar-se um ao outro quando cada uma das partes se mostrarem estimáveis e confiáveis entre si, pois o desejo da amizade pode surgir instantaneamente, enquanto que a amizade propriamente dita não. Por isso, mesmo que a gente cresça e não tenha tanto tempo para os amigos por causa da nossa vida atarefada ou por conta da família que construímos quando crescemos, devemos saber que os verdadeiros amigos sempre estarão ali para te apoiar e te ajudar no que precisar.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

Aristóteles. Metafísica; Ética a Nicômaco; Poética: Livro VIII – Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Disponível em: http://abdet.com.br/site/wp-content/uploads/2014/12/%C3%89tica-a-Nic%C3%B4maco.pdf

Moraes Neto, Joaquim José de. A amizade em Aristóteles. Londrina: Editora UEL, 1999.

Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Tradução de Marcelo Perine e henrique Cláudio de Lima Vaz. São Paulo: Loyola, 1993.

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