Angela Davis – Raça, Gênero e Classe

A filósofa Angela Yvone Davis nasceu em 26 de janeiro de 1944, na cidade de Birmingham, Alabama, nos Estados Unidos. Davis sofria, em sua juventude, com a política de segregação racial implantada na maioria dos estados do sul dos Estados Unidos, chamada de Lei Jim Crow. Tais medidas definiram que as escolas públicas e a maioria dos locais públicos apresentassem instalações diferentes para brancos e negros. As leis de Jim Crow ficaram em vigor entre os anos de 1876 e 1965 e foram combatidas por diversos grupos, como é o caso da NAACP (National Association for Advancing of Colored People), órgão fundamental para findar a segregação.

Angela Davis vivenciou profundamente o racismo, vendo as ações brutais da Ku Klux Klan, uma das organizações mais populares do Alabama na época da segregação racial. Além da política oficial de segregação, que não permitia que a população negra tivesse o reconhecimento de seus direitos civis, a filósofa vivenciou vários atos de barbárie promovidos por brancos contra os negros, como, por exemplo, os linchamentos de negros e os incêndios e explosões criminosos de casas e igrejas nos bairros habitados por negros. O próprio bairro em que Angela Davis morava foi apelidada de “Dinamite Hill”, por conta da alta frequência de ataques a bombas e incêndios por supremacistas brancos. Por isso, a filósofa sempre conviveu, por um lado, com grupos que não aceitavam o avanço social da população negra e, por outro lado, com o ativismo político, proveniente de sua convivência com familiares e amigos envolvidos nas lutas por direitos civis, organizações antirracistas e protestos.

Em 1963, Davis mudou-se para o Estado de Massachusetts, no norte dos Estados Unidos, para estudar na Universidade de Brandeis, já que os Estados do norte dos Estados Unidos estavam muito à frente em questões raciais, não havendo, por exemplo, a política de segregação racial. Neste mesmo ano aconteceu um atentado a bomba em uma igreja frequentada por negros em Birmingham. Quatro adolescentes negras morreram no atentado motivado por racismo, todas elas eram conhecidas de Angela Davis. Esse atentado marcou a trajetória da filósofa e a fez perceber a imensa importância de se lutar pela questão racial, filiando-se inclusive ao Movimento dos Panteras Negras.

Sendo uma das intelectuais mais importantes da atualidade, Angela Davis produziu diversos artigos, livros e falas públicas em universidades e eventos, realizando diversas análises sobre temas clássicos da filosofia, além de contribuições sobre as interconexões entre gênero, raça e classe, o abolicionismo penal, a crítica aos conceitos de liberdade e democracia e análises estéticas e da cultura.

Uma de suas maiores pesquisas diz respeito às mulheres negras durante o período de escravização nos Estados Unidos. Até aquele momento, nos anos 70, haviam poucos trabalhos sobre as mulheres escravizadas e poucos estudos sobre esse mesmo tema numa perspectiva feminista. Angela Davis, ao discutir sobre como o estereótipo da mulher negra formado durante o período escravocrata contaminava o olhar contemporâneo sobre a mulher negra, lançou luz sobre o caráter misógino e racista da acusação e do processo levantados contra a filósofa, quando esta foi presa injustamente, acusada de ter ajudado indiretamente Jonathan Jackson, irmão de um dos Irmãos Soledad, que visava a libertação de presos políticos.

Por ser mundialmente conhecida como ativista dos direitos das mulheres, população negra e carcerária, Angela Davis é até hoje interpretada a partir de tópicos que relacionam prisões, repressão, resistência, marxismo, antirracismo, feminismo, estética e cultura. Assim, as interconexões entre raça, classe e gênero configuram o centro da obra da filósofa, no qual se apresentam como indicadores sociais fundamentais à cristalização de sistemas de opressão interligados, já que os conceitos de raça, classe e gênero agem de modo simultâneo e de forma estrutural, para criar e manter a subalternização de mulheres negras e a desigualdade social e econômica própria à sociedade capitalista.

Ao atuar no Movimento dos Panteras Negras, a filósofa compreendeu que, apesar dos direitos civis, as questões culturais e a estética negra já tenham sido bem debatidos, ainda era necessário avançar nos aspectos econômicos e políticos que produzem desigualdade e opressão. Além disso, refletiu sobre a obliteração da atuação das mulheres em movimentos marxistas e comunistas, e que mesmo as organizações feministas nos anos 1960 e 1970 não atraíam o interesse de mulheres negras engajadas politicamente. Davis então apresentou a ideia de que as lutas da classe trabalhadora, antissexistas e antirracistas pareciam estar separados e que era necessário desenvolver uma teoria e prática que ligasse a opressão de classe, gênero e raça.

Davis também investiga o modo como uma forma de opressão pode ser jogada contra outra, de modo a criar conflitos e divisões entre lutas e teorias, por exemplo, a proteção das mulheres contra violência de gênero não é a mesma para todas, já que as mulheres de cor e pobres estão muito mais desprotegidas que as mulheres brancas e ricas, dificultando o ativismo conjunto de mulheres de cor e brancas; ou ainda, em sua análise da cultura, a filósofa também mostrou como a imagem dos afrodescendentes e a mercantilização da resistência negra pode enfraquecer a luta conjunta contra o racismo. Os trabalhos de Davis podem ser analisados através de um movimento que é denominado de dialética entre as opressões e resistências. Embora tenhamos um passado de exposição à violência e opressões, interconectando racismo, sexismo e exploração de classe, as resistências compõem parte crucial do trabalho realizado por todos os explorados. Angela Davis nos mostra que tais resistências são múltiplas e variadas, estando presentes na organização política por meio de coletivos, organizações sociais e partidárias, na valorização da estética e cultura negras, além da disputa de narrativas que frequentemente tenta invisibilizar a produção intelectual de mulheres negras na academia.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/angela-davis.htm

https://www.infoescola.com/estados-unidos/era-jim-crow/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Jim_Crow#:~:text=As%20leis%20de%20Jim%20Crow,ap%C3%B3s%20o%20per%C3%ADodo%20da%20Reconstru%C3%A7%C3%A3o.

SOUZA, Thais Rodrigues de. RUBIANO, Mariana de Mattos. Angela Davis: interconexões entre gênero, raça e classe, ativismo e pensamento. In: MÜLLER, Maria Cristina. BAHDUR, Daniela Hruschka (Orgs.). 12 Mulheres, 12 Filósofas, 12 Artistas. Londrina, Engenho das Letras, 2021. Livro disponível no site: www.engenhodasletras.com.br

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