HANNAH ARENDT – O SENTIDO DA POLÍTICA

Para Hannah Arendt, o sentido da política é a liberdade, e o fato desta resposta ser tão simples e conclusiva é porque ela é tão antiga quanto à existência da esfera política. Por isso é que atualmente nossa pergunta não é mais sobre o sentido da política, mas a pergunta que se faz é: será que a política ainda tem de algum modo um sentido? E esta pergunta é despertada por causa dos desastres que a política causou no século XX e pelo desastre que dela ameaça resultar.

Na Antiguidade, política e liberdade eram vistas como idênticas, mas depois das experiências do totalitarismo, onde a vida dos homens tornou-se supostamente politizado, resultando no fato de não ter mais liberdade alguma nestes homens, surge a questão de saber se política e liberdade ainda são conciliáveis entre si. Outra questão que se abre é se a política e a preservação da vida também são conciliáveis entre si, visto o desenvolvimento monstruoso das modernas possibilidades de aniquilação, monopolizado pelos Estados, como um tipo de massacre administrativo, pois é apenas no âmbito político que essas possibilidades podem ser empregadas. Esse genocídio provou não existirem limites para a capacidade humana de cometer atrocidades contra outros seres humanos. Aqui se revela a fragilidade da Tradição Ocidental, pois ela não possui categorias e seus valores e códigos não foram suficientes para explicar a realidade do mundo contemporâneo.

Esta crise entre filosofia e política vem desde Platão, pois, ao ver que Sócrates não consegue tornar a filosofia relevante para a polis, ele afasta a filosofia das preocupações com o mundo comum, separando a vida ativa (labor, trabalho e ação) da vida contemplativa (pensar, querer e julgar). Já para Arendt, nós possuímos os dois tipos de vida, pois realizamos todas essas atividades hierarquicamente, já que é destas duas partes que constitui a condição humana.

Mas esse questionamento sobre as formas de dominação totalitárias parece ter sido retirado de um ponto de vista que, historicamente falando, lhe seria anterior, já que, na modernidade, a política foi vista como um meio de assegurar provisões vitais da sociedade e a produtividade do livre desenvolvimento social, pois o totalitarismo demonstra o mesmo nível de razão demonstrado pelo pensamento liberal ou conservador do século XIX. Mas o embaraçoso é que tal retirada é simplesmente impossível, pois o que ameaça a esfera política no totalitarismo é exatamente aquilo que, do ponto de vista da modernidade, legitima essa esfera em sua existência, já que é verdade que a política não é nada alem do que é infelizmente necessário para a preservação da vida da humanidade. Então, com o totalitarismo, seu sentido transformou-se em falta de sentido.

A política, no todo, cai na falta de sentido, pois se revela no beco sem saída em que deságuam todas as questões políticas particulares. Se tentarmos refletir sobre a situação e avaliar os fatores particulares que se produziram pela dupla ameaça das formas de governo totalitárias e das armas atômicas, não podemos sequer imaginar uma solução satisfatória, nem mesmo pressupondo a maior boa vontade de todas as partes, pois, na esfera política, uma vontade boa hoje pode não assegurar qualquer boa vontade amanhã, e já que nada do que é hoje em dia conhecido determina ou determinará o curso do mundo, então uma mudança decisiva para a salvação só poderá ocorrer por algum tipo de milagre.

Esse milagre não é o mesmo da crença religiosa ou da superstição, pois podemos trazer a memória que a nossa própria existência na Terra é um certo tipo de milagre. Então, sempre que ocorre algo novo, esse algo acontece de modo inesperado, imprevisível e inexplicável de um ponto de vista causal, passando a figurar como um milagre na conexão dos acontecimentos previsíveis, ou, dizendo em outras palavras, cada novo início é, segundo sua natureza, um milagre, quando visto e experimentado da perspectiva dos processos que ele necessariamente interrompe.

Mas isto é do âmbito terrestre-orgânica-humana, cuja organização surgiu como realidade pelos impactos de “improbabilidades infinitas”, já no âmbito das ocupações humanas esse exemplo começa a vacilar, pois estes últimos são de natureza histórica, isto é, são cadeias de acontecimentos em cuja estrutura aquele milagre de improbabilidade infinita acontece com tanta freqüência que nos parece estranho falar aqui de milagre, pois esse processo histórico surgiu de iniciativas humanas e de que ele é continuamente rompido por novas iniciativas. Assim, todo novo início no processo, seja esse novo início tanto para a salvação ou para o desastre, é tão infinitamente improvável que todos os acontecimentos de uma importância maior se apresentam como milagres.

Então, a diferença decisiva entre as “impossibilidades infinitas” e os acontecimentos milagrosos no próprio âmbito das ocupações humanas está no fato do homem ser o feitor dos milagres, pois ele é um ser dotado para fazer milagres, e a esse dom nós chamamos de agir. E é próprio ao agir o desencadeamento de processos cujo automatismo se parece muito ao dos processos naturais, e é próprio dele também estabelecer um novo início. Aqui esse milagre da liberdade se insere nesse poder iniciar, e que todo homem, ao nascer, é, ele mesmo, um novo início. E esta ação se faz através da interação entre os homens, pois não é algo próprio, mas sim algo que existe entre a ligação dos homens, ação esta que se revela no discurso, que, através de uma mentalidade alargada (Kant), possibilita o entendimento, pois se pensa as coisas além de mim, e esta compreensão, num sentido de linguagem, faz perceber a diferença entre cada um, e é por causa desta pluralidade é que Arendt prefere um dissenso do que um consenso. No totalitarismo o homem não foi mais capaz de pensar, de agir e de julgar, pois esta sociedade de massa criou um individuo atomizado, em isolamento com os demais.

Esta espontaneidade, como diz Kant, nos parece muito estranha, pois para a tradição a liberdade se identifica com o livre arbítrio e a compreensão do livre arbítrio como a liberdade de escolher entre coisas dadas de antemão, e, ainda para a tradição, a liberdade não apenas não se encontra no agir e na esfera política, mas, ao contrário, só é possível se o homem abre mão do agir, retira-se do mundo em direção a si mesmo e evita a esfera política. E contra essa tradição conceitual e categorial não está apenas à experiência de todo homem, mas está também nas línguas antigas, como, por exemplo, o termo grego archein que significa iniciar e comandar, isto é, ser livre, e também o termo latino agere que significa pôr em movimento, ou seja, desencadear um processo.

Então, tendo em vista que o sentido da política é a liberdade, isso significa que nós temos de fato o direito de ter a expectativa de milagres, pois enquanto possamos agir espontaneamente, nós seremos aptos a realizar o improvável e o imprevisível, e realizamos isso continuamente, quer saibamos ou não.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referência:

ARENDT, Hannah. A Promessa da Política. Tradução: Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.

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