ARISTÓTELES – A FILOSOFIA PRIMEIRA

Metafísica significa “além da física”, ou seja, trata-se de conceitos que basicamente transcendem o mundo físico, por tratar de conceitos mais abstratos, que podemos pensar a respeito deles, mas não existe um objeto físico que a gente possa demonstrar para explicar esse conceito.

Primeiro, devemos ter a ideia de que Aristóteles foi um dos maiores críticos do seu professor Platão, se não em todas, mas talvez na maioria das áreas filosóficas que eles abordaram. Isso porque, enquanto o Platão acreditava que existiam dois mundos, na qual um desses mundos era o mundo sensível, que é esse mundo na qual nós percebemos nesse exato momento através dos nossos sentidos, e o outro mundo era o mundo das ideias, que seria um mundo superior onde estariam as ideias acerca de todas as coisas, e que era aí que estava então o conhecimento verdadeiro, pra Aristóteles existe então apenas um mundo, que é o mundo sensível, e que será através das experiências que temos nesse mundo sensível é que conseguiríamos então conhecer as coisas, ou seja, que seria então através dos nossos sentidos, a visão, o olfato, o paladar, o tato e a audição, é que conseguiríamos compreender, entender o mundo a nossa volta, alcançando assim o conhecimento verdadeiro. Então não seria necessário a noção de um mundo das ideias, como foi proposto pelo filósofo Platão.

Pra Aristóteles então, o nosso conhecimento é acerca do mundo real, que começa pela experiência dos sentidos, pois vai ser através do entendimento e da transformação da realidade é que vamos conseguir desenvolver os conceitos das coisas. Por isso é que o conhecimento racional e o conhecimento sensível dependem um do outro, pois pra Aristóteles, as nossas ideias só são possíveis porque nós vamos realizando uma espécie de abstração de tudo aquilo que nós percebemos no mundo real através dos nossos sentidos, transformando assim a nossa experiência em conhecimento racional. É por isso que o Aristóteles critica seu mestre Platão, pois não existe nada na nossa mente, na nossa capacidade intelectiva, racional, que não tenha antes passado pelos nossos sentidos.

Mas, para isso, para chegarmos ao conhecimento verdadeiro, precisamos passar então por um processo do conhecimento. Primeiro, devemos usar os nossos sentidos para captar o mundo, os objetos à nossa volta, por exemplo, vamos supor que, quando nós éramos pequenos, nós usamos a visão para vermos uma caneta pela primeira vez, então nós começamos a observar essa caneta, ver a sua forma, a sua cor, a sua matéria, e assim nós observamos então uma caneta pela primeira vez. Aí então nós partimos para a segunda etapa, que é quando nós usamos a nossa memória e a nossa imaginação para ir arquivando em nossa mente todas as canetas que nós vamos observando no decorrer de nossa vida, então, a partir das várias experiências que vamos tendo, quando começamos a ver vários tipos de canetas diferentes, nós vamos organizando as informações do que é uma caneta no nosso intelecto. Por fim, agora na terceira etapa, nós iremos então ter a capacidade de descobrir as causas daquilo que nós conhecemos, ou seja, nós podemos então descobrir a essência daquilo que nós estávamos conhecendo, no caso aqui do nosso exemplo, nós conseguimos então descobrir a essência do que é uma caneta, e vamos saber então diferenciar uma caneta de um lápis, por exemplo, ou diferenciar uma caneta de um marca texto, então, nós conseguimos definir o que faz de uma caneta ser uma caneta, descobrindo assim as causas que compõem uma caneta.

Por isso que é importante descobrirmos aquilo que o Aristóteles chamou de “as quatro causas”, ou seja, as causas que levam à existência de alguma coisa. Para a gente entender o que são essas quatro causas, vamos pegar aqui por exemplo o objeto cadeira. Uma das causas da cadeira é a sua causa material, ou seja, é a matéria da qual a cadeira é feita, que pode ser de madeira, de plástico, de ferro ou uma junção entre mais de um tipo de material. Outra causa seria a causa formal, ou seja, a forma que a cadeira possui, com assento e encosto, por exemplo, e o que faz a cadeira se diferenciar de um banco ou de uma poltrona, por exemplo. A terceira causa seria a causa eficiente, ou seja, aquilo que deu impulso à existência da cadeira, por exemplo, se for uma cadeira de madeira, quem pode ter feito a cadeira pode ter sido um marceneiro ou uma máquina. Por último, temos a causa final da cadeira, ou seja, o objetivo, a finalidade na qual a cadeira foi feita, no caso, sabemos que a cadeira foi feita para se sentar e para apoiar as nossas costas. Essas então seriam as causas que explicam o movimento e a existência das coisas segundo o filósofo Aristóteles.

Pro filósofo Aristóteles, todo ser que existe no universo é uma substância, já que é constituído de algo físico, por exemplo, pode ser uma pedra, uma caneta ou o ser humano. Por isso, a substância é aquilo que é em si mesmo, ou seja, cada substância existe por si mesma, e é então o suporte dos atributos, atributos estes que podem ser de dois tipos, essenciais ou acidentais. A essência da substância é o atributo que pertence à substância de tal modo que, se lhe faltasse este atributo, a substância não seria o que é, por exemplo, a substância “ser humano” tem como característica essencial o atributo da racionalidade, por isso, a essência de todo ser humano é ser um ser pensante, racional. O acidente, por sua vez, é o atributo que a substância pode ter ou não ter, sem deixar de ser o que é, tomando novamente o ser humano como exemplo, podemos dizer que os acidentes seriam as formas particulares que cada ser humano possui, como ser gordo ou magro, ser velho ou novo, ser belo ou feio, pois estes atributos não mudam a essência do que é ser um ser humano.

Outros conceitos trabalhados na metafísica de Aristóteles são os conceitos de ato e potência. O ato é a forma de toda substância de como ela é no momento presente. Toda substância que existe no agora é em si um ato, ou seja, cada ser, cada objeto que existe neste exato momento é um ato. Já a potência é a capacidade que cada substância tem em tornar-se alguma coisa, em outras palavras, é a possibilidade que toda substância em ato tem de vir a ser, afinal, para se atualizar, toda substância precisa sofrer a ação daquilo que já é em ato. Por exemplo, uma semente é uma substância enquanto ato, mas tem a potência de vir a ser um broto, e um broto será um ato que tem a potência de se tornar uma árvore, e a árvore é em ato uma árvore que tem a potência de se tornar um móvel, um brinquedo, um carvão ou que suas sementes poderão vir a ser um dia outras árvores. O mesmo acontece com o ser humano, pois o feto é em ato um feto, que tem a potência de se tornar um bebê, já o bebê é em ato um bebê que tem a potência de se tornar uma criança, que poderá vir a ser um adolescente, um adulto, um idoso, e, se gerar frutos durante a sua vida, continuará o processo da vida por meio de outros seres humanos.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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