ARISTÓTELES – AMIZADE

Todo homem deseja buscar a felicidade, que é o bem supremo, e devemos buscar esta felicidade não através de prazeres, honra e riqueza, mas sim através da atividade da razão, assim “o bem do homem consiste em uma atividade da alma segundo a sua virtude e, quando as virtudes são mais de uma, segundo a melhor e a mais perfeita” (Reale, 1993, 204). A faculdade do desejo não participa da razão, já a razão participa da parte vegetativa no intuito desta escutar e obedecer à razão. Este domínio que a razão tem ao orientar esta parte da alma se chama virtude. Adquirimos esta virtude através do hábito, ou seja, “nós adquirimos as virtudes com uma atividade anterior” e “é fazendo que nós aprendemos a fazer as coisas que é necessário aprender antes de fazer” (Reale, 1993, 204). As “virtudes éticas” tendem ao excesso ou a falta, que constituem erros e são censurados, assim, a razão intervem impondo a “justa medida”, por exemplo, a coragem é a justa medida entre a temeridade e a covardia. E nesta justiça é que esta abarcada toda a virtude (Reale, 1993, 204).

Assim, podemos dizer que a amizade é uma virtude ou também é simultânea a virtude, sendo ela essencial à vida, “porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens” (Aristóteles, 1979, p.179). Até os ricos e os detentores de autoridade e poder são os que mais precisam de amigos, pois esta prosperidade serve para o desejo de fazer o bem, ainda mais para com os amigos. Já na pobreza e na infelicidade os amigos são o seu único refúgio. Para os jovens, a amizade ajuda a evitar os erros, e, aos idosos, ela ajuda a atender as suas necessidades e suprir as atividades que declinam devido os efeitos dos anos. E “para os homens que estão em pleno vigor da idade a amizade os estimula a prática de belas ações” (Moraes Neto, 1999, p.23), pois na amizade, assim como diz o poeta, “dois que andam juntos”, os homens são mais capazes de agir e de pensar.

Podemos perceber que aqueles que criam sentem uma afeição natural para com os que são criados, assim como também os criados pelos seus criadores, e isto não acontece somente entre os homens, mas também entre a maioria dos animais, pois os membros da mesma raça a sentem pelos seus semelhantes, até mesmo quando viajamos para outras terras vemos a mesma afeição entre os homens (Moraes Neto, 1999, p.23).

Pode-se ainda perceber que a amizade mantém unidos os Estados visto que “os legisladores tem mais amor à amizade do que com a justiça” (Aristóteles, 1979, p.179), pois eles visam acima de tudo à unanimidade, que se assemelha a amizade, ao passo que rejeitam sempre quando possível o faccionismo, que é a inimizade nas cidades. Acredita-se que, quando existe a amizade entre os homens estes não necessitam de justiça, enquanto que, por mais que um homem seja justo, ainda sim ele precisa da amizade, e podemos ver que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa (Aristóteles, 1979, p179). E a amizade não é apenas necessária, ela também é nobilitante, pois louvamos os nossos amigos e os amigos de nossos amigos, e que é uma bela coisa termos muitos amigos e estas mesmas pessoas, pensamos nós, são homens bons e amigos.

Existem várias espécies de amizade, e antes de falar delas devemos primeiro tomar conhecimento do objeto do amor. O amor pode ser bom, agradável ou útil, onde o útil é apenas um meio para se conseguir o bom e o agradável, estes que são vistos como fins. Uma pessoa não ama aquilo que é bom, mas sim o que lhe parece bom, e quando uma pessoa deseja o bem aos outros sem uma reciprocidade, aí só lhe atribuímos à benevolência, então só podem ser amigas as pessoas que se conhecem umas as outras e que se desejam bem reciprocamente por serem elas boas e agradáveis (Moraes Neto, 1999, p.25).

Desse modo, é em espécie que diferem as formas de amor e amizade, e em cada uma delas existe um amor mútuo e conhecido. Na utilidade, eles “não se amam por si mesmos, mas em virtude de algum bem que recebem um do outro”, e “os que amam por causa do prazer amam em virtude do que é agradável a eles, e não na medida em que o outro é a pessoa amada” (Aristóteles, 1979, p.181). Amizades que tem em vista o útil e agradável são dissolvidas facilmente, pois são acidentais e mudam constantemente.

A verdadeira e perfeita amizade é a dos homens que são bons e semelhantes em termos de virtude, pois estes homens se desejam igualmente bem um ao outro, sendo eles assim bons em si mesmos. As pessoas que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos mostram a sua verdadeira amizade, pois elas o fazem em razão da sua própria natureza, e não por acidente, pois este seria o caso da amizade que tem em vista a utilidade. E essa amizade verdadeira dura enquanto essas pessoas forem boas, e a bondade é uma coisa duradoura (Aristóteles, 1979, p181 e 182). Essa amizade perfeita é irrestritamente boa, pois estas pessoas são agradáveis e úteis irrestritamente entre si, e por ser reciprocamente agradável e útil, esta amizade se torna duradoura (Moraes Neto, 1999, p.28 e 29).

Mas amizades assim são raras, pois estes tipos de homens também são raros, e este tipo de amizade exige tempo e intimidade, pois elas só podem ser amigas depois que tiverem, como diz o provérbio, “provado sal juntos”, e também só podem aceitar-se um ao outro quando cada uma das partes se mostrarem estimáveis e confiáveis entre si, pois o desejo da amizade pode surgir instantaneamente, enquanto que a amizade não (Aristóteles, 1979, p.182).

Autor: João Paulo Rodrigues

Bibliografia

Aristóteles. Metafísica; Ética a Nicômaco; Poética: Livro VIII – Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Moraes Neto, Joaquim José de. A amizade em Aristóteles. Londrina: Editora UEL, 1999.

Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Tradução de Marcelo Perine e henrique Cláudio de Lima Vaz. São Paulo: Loyola, 1993.

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