ARISTÓTELES – METAFÍSICA

No primeiro parágrafo do capítulo quatro, Aristóteles procura distinguir os vários sinais que possibilitam determinar a substância. O filósofo entende que um desses sinais parece ser a “essência”. Um atributo essencial, porque é aquilo que está numa coisa que é porque, se não estivesse, a coisa não seria. Para entendermos melhor, busquemos a etimologia da palavra. Essência é uma palavra de origem latina (posterior ao grego, portanto). A palavra que isto traduz é o termo grego “ousia”, que de forma literal significa “o que é por si mesmo”, ou seja, o que é primeiro numa substância, não podendo ser tirado desta sem que se perca o ser. A essência esta ligada a própria natureza, como, por exemplo: ser João não é ser médico, já que João não é médico por sua própria natureza, embora “médico” possa ser um de seus predicados, porém não é sua essência, logo, ser João é sua própria natureza, portanto “o que é por si mesmo”.

A essência de cada coisa é aquilo que dizemos ser ela “propter se”, ou seja, a essência é o “ser que existe para si mesmo”. Podemos clarear este ponto com o exemplo dado por Aristóteles, segundo o qual diz que o branco não pode constituir a essência de uma superfície, porque ser superfície não é idêntico a ser branco, ou seja, a superfície pode ser composta por diversas categorias, e dentre elas temos o branco em nosso caso, mas nenhuma delas constitui a sua essência.

A questão trazida por Aristóteles no quarto parágrafo é a seguinte: se o ser é composto por diversas categorias, será que para cada categoria existe uma essência? Ao que tudo indica, sua reposta encaminha uma posição negativa. Por exemplo, Aristóteles afirma que, se tentarmos definir uma espécie de predicado combinando-a com um outro determinante, esta espécie não é propter se. Ou seja, podemos usar a expressão “homem branco”, e o homem branco é realmente branco, mas não alcançamos deste modo a sua essência, porque ela não está no fato dele ser branco.

A essência é aquilo que uma coisa é. Se agregarmos um atributo a uma coisa que é outra, essa combinação não constitui precisamente uma essência. Como no exemplo dado acima, “homem branco” não é uma essência. Concluímos que só há essência naquelas coisas cuja fórmula é uma definição, isto é, “quando temos a fórmula de algo primário”. Aristóteles entende por primárias aquelas coisas em que um de seus elementos não é predicado de outro elemento. Aqui, podemos perceber que, para Aristóteles, há três tipos de relações: primeiro, a essencial, em seguida, a substancial, e por último, a categorial. Em primeiro lugar devemos compreender a relação essencial de nosso ser, depois vêm as outras relações.

“Definição” pode ser entendida de duas maneiras. No primeiro sentido, como “aquilo que uma coisa é”, designa a sua substância. No outro sentido, como “isto”, significa um ou outro dos predicados: quantidade, qualidade, etc. Fazendo uma analogia com o modo como o “ser” pertence a todas as coisas, nos seus diversos sentidos, em uma delas como uma espécie de coisas primárias e nos outros sentidos como espécies de coisas secundárias, Aristóteles nos diz que, do mesmo modo, “o que uma coisa é” pertence em sentido pleno à substância, mas em um sentido mais limitado também às categorias. Pois, mesmo de uma qualidade poderíamos nos perguntar o que ela é, de modo que uma qualidade também designa “o que uma coisa é”. Aristóteles faz uma nova analogia com o que não é para explicar que “o que uma coisa é”, de uma qualidade não possui significado simples, de substância, mas apenas com ênfase na sua forma lingüística.

Enfim, temos que definição e essência, em seus sentidos primários e simples, pertencem às substâncias. Porém, elas pertencem também a outras coisas que não se encontram em seu sentido primário. Assim, “o que é”, em um sentido denota a essência, mas em outros sentidos pode denotar uma quantidade ou uma qualidade. Deste modo, pode haver uma fórmula para a expressão “homem branco”, mas não no sentido em que há uma definição do branco ou da substância, ou seja, nunca como essência.

Ideia e Indivíduo

Aristóteles acreditava que a Idéia não constituía realidade separada. A realidade para ele é de indivíduos concretos, e só neles existe a idéia, a quem chama de forma. Argumenta que é a razão que controla nossos atos e nela há o raciocínio a partir dos dados dos sentidos. A forma seria aquilo que a matéria faz. O mundo é dividido entre orgânico e inorgânico, sendo o orgânico o que encerra em si uma capacidade de transformação. Diversamente da idéia platônica, a forma aristotélica não é separada da matéria, e sim imanente e operante nela. Ao contrário, as formas aristotélicas são universais, imutáveis, eternas, como as idéias platônicas.

Os elementos constitutivos da realidade são, portanto, a forma e a matéria. A realidade, porém, é composta de indivíduos, substâncias, que são uma síntese – um sínolo – de matéria e forma. Por conseqüência, estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuadas – bem como a matéria não pode ser atuada – a não ser por um outro indivíduo, isto é, por uma substância em ato. Daí a necessidade de um terceiro princípio, a causa eficiente, para poder explicar a realidade efetiva das coisas. A causa eficiente deve operar para um fim, que é precisamente a síntese da forma e da matéria, produzindo, nesta síntese, o indivíduo. Daí uma quarta causa, a causa final, que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma.

Mediante a doutrina da matéria e da forma, Aristóteles explica o indivíduo, a substância física, a única realidade efetiva no mundo, que é precisamente síntese – sínolo – de matéria e de forma. A essência – igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie – deriva da forma; a individualidade, pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais, depende da matéria. O indivíduo é, portanto, potência realizada, matéria enformada, universal particularizado. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular, que tanto atormenta Platão; Aristóteles faz o primeiro (a idéia) imanente no segundo (a matéria), depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico, que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referência:

ARISTÓTELES. Metafísica. Vols. I, II, III, 2ª edição. Ensaio introdutório, tradução do texto grego, sumário e comentários de Giovanni Reale. Tradução portuguesa Marcelo Perine. São Paulo. Edições Loyola. 2002.

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