AVERRÓIS – METAFÍSICA

Averróis (Abu-I-Walid Muhammad Ibn Ruchd, o neto) (1126-1198), nascido em Córdoba, na Espanha, foi um dos maiores filósofos árabes, ao lado de Avicena, e influenciou muitos filósofos durante a Idade Média, a Renascença e o começo dos tempos modernos. Estudou várias áreas de conhecimento, entre elas a teologia e a filosofia. Exerceu a função de juiz por vários anos, mesma função de seu avô, seu pai e seu filho. Por seus escritos sobre Aristóteles, Averróis levou o titulo de “Comentador” por excelência durante a Idade Média. Seus textos são conhecidos atualmente devido as suas traduções em Latim, já que os originais em Árabe se perderam com o tempo (GILSON, 1995, p.441).

Para Averróis, a metafísica é a ciência do ser enquanto ser (conceito aristotélico), assim como também das propriedades que lhe pertencem como tal. A metafísica de Averróis aparece com as mesmas noções e os mesmos princípios que compõem a estrutura básica da metafísica de Aristóteles. Segundo Averróis, a metafísica tem por objeto o estudo de tudo o que é, enquanto é. Averróis compreende que toda substância é um ser, e que todo ser é, sendo ele uma substância ou um acidente que participa do ser da substância, já que o acidente não chega a conhecer a essência do ser concreto que não está em um sujeito. O sentido primário do termo substância é que ela é a própria coisa individual, ou seja, do concreto que não está em nenhum sujeito como suporte nem de modo algum é predicável do sujeito (GILSON, 1995, p.445). Em segundo lugar, a substância se diz de todo predicado universal que se passa a conhecer uma essência genética, específica, ou diferencial de algo concreto. E em terceiro lugar ao todo que é significado pela definição como também aquilo que concede a conhecer a essência da substância e ao que dá a entender uma coisa qualquer das que pertencem aos predicamentos (COSTA, 1994, p.75). A substância seria uma essência real, que determina cada substância a ser o que é e. ao se ligar à realidade concreta, o ser de cada coisa lhe é próprio, pois o que é real é de pleno direito.

O que as categorias do ser (a substância, a qualidade, a quantidade, etc.) têm em comum com os outros é o fato de determinar cada coisa que é, pois o ser é “análogo”, visto que todas as categorias têm uma “relação” com o ser. O método utilizado por Averróis é o da Lógica, empregado como um meio de explorar a natureza real do ser e de suas propriedades, e para que esta lógica seja aplicada ao real é preciso que as coisas sensíveis sejam ao mesmo tempo inteligíveis. As coisas o são e é isso que prova que é o pensamento de um intelecto é sua causa primordial (GILSON, 1995, p.445). O intelecto é essencial, pois o que é essencial só existe por uma causa eficiente e necessária. As coisas sensíveis resultam da concepção de um intelecto já que é essencial às coisas sensíveis serem virtualmente inteligíveis. Assim, segundo Averróis:

É verdade que são sensíveis; mas o pensamento do artesão também produz objetos materiais. Se podemos compreender estes objetos, é porque eles vêm de um pensamento, isto é, de uma forma inteligível presente no intelecto de quem os fez. O mesmo se dá com as coisas naturais. Os platônicos erraram ao acreditar na existência das idéias separadas, mas não ao pensar que o sensível receba sua integibilidade de uma causa qualquer (GILSON, 1995, p.446).

Segundo Averróis, é um erro acreditar que os universais existem fora dos indivíduos. Se admitirmos essa existência em si dos universais, acabaríamos supondo duas alternativas absurdas, uma seria supor que cada indivíduo só possui uma parte do universal, e outra seria supor que o universal está presente por inteiro em cada indivíduo, colocando-o ao mesmo tempo como uno e múltiplo. Então Averróis admite que o universal não é uma substância, mas obra do entendimento, sendo o universal “o que pode ser predicado de vários indivíduos”, não podendo ser um indivíduo, mas também não significa que o conhecimento que temos do universal seja sem objeto, pois os indivíduos não são simples (GILSON, 1995, p.446). Para Averróis:

A forma é o ato ou essência do que é; a matéria é a força atualizada e determinada pela forma; a substância individual é o composto das duas. O que o pensamento alcança concebendo o universal é a forma, e ele a exprime na definição. O nome da coisa designa toda a coisa, mas é a forma que o merece em primeiro lugar. (Gilson, 1995 p.446)

Isso se dá ao fato de Averróis dar prioridade da existência sobre a essência, pois o ser se diz em um sentido verdadeiro, que é uma intenção mental de que a idéia existente na mente é igual ao que existe fora dela, e em um sentido que é o oposto ao nada, dividido em dez categorias que é o gênero, anterior aos seres entendidos no outro sentido. Então é necessário buscar primeiramente o conhecimento prévio à ciência sobre a existência de uma coisa antes de buscar a sua essência. Assim, “uma vez conhecido que esse significado corresponde a uma existência exterior, se sabe que é uma essência real e uma definição nominal” (COSTA, 1994, p.74). Aqui Averróis diz, no livro das Categorias, que os universais destas devem sua existência aos indivíduos e os indivíduos devem sua integibilidade aos conceitos universais (COSTA, 1994, p.74).

Toda substância sensível o é em ato e em potencial por ser composta de forma e de matéria, já que, pelo ato, a substância é e, pela potência, a substância pode tornar-se. Passa-se de potência a ato ao estar em movimento, pois tudo o que esta em movimento é movido por um motor. Assim o movido só o é porque existe em potencial, e o motor só move porque existe em ato. Os seres em movimento se dividem em três classes: a mais baixa são os seres que são movidos e não movem; a intermediária entende-se por aqueles que são ao mesmo tempo efeitos e causas, os que movem e são movidos; e a mais alta compreende os seres que movem sem serem movidos. Assim, segundo Averróis, os intermediários podem se multiplicar tanto quanto se quiser já que seu número não muda coisa alguma (GILSON, 1995, p.447). Essa multiplicidade não pode ser em ato, mas sim em potência, compreendido no sentido de que esta matéria prima não tem divergência, desde que esteja distribuída pelos indivíduos (COSTA, 1994, p.76). O intermediário só não pode ser infinito porque senão não haveria causas primeiras e, por consequência, nem movimento, já que se é um fato que há movimento, então seu número é finito e sua ação implica a existência de uma classe que movem sem serem movidas, as causas primeiras (GILSON, 1995, p.447).

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

COSTA, José Silveira da. Averróis: o aristotelismo radical. São Paulo: Editora Moderna, 1994.

GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

Deixe uma resposta