BERGSON – MATÉRIA E MEMÓRIA

Biografia

Henri Bergson (1859-1941) é um filósofo da vida, filósofos estes que são todos atualistas absolutos, para eles existe o movimento, o devir, a vida. Para os filósofos da vida o ser e a matéria são resíduos do movimento, eles têm uma concepção orgânica da realidade, ou seja, a biologia é decisiva.

O mundo não é uma máquina, mas sim a vida em ação. Os seus métodos filosóficos são: a intuição, a prática, a compreensão viva da história. E apesar de tudo eles admitem a existência de uma realidade objetiva que transcende o sujeito.

Henri Bergson é o representante mais conceituado e original da “filosofia da vida”, pois ele a tem na forma mais acabada, porém, ele não é o fundador, Blondel precedeu Bergson e também Lê Roy, este último que já havia se manifestado contra o mecanicismo. Este movimento tem relação à tendência espiritualista, voluntarista e personalista da filosofia francesa.

Maine de Biran, Félix Ravaisson-Mollien, Jules Lachelier e Émile Boutroux são as principais influências de Bergson. Ele também foi influenciado pela “critica da ciência”. No começo, ele tomou teorias evolucionistas e utilitaristas inglesas, para ele, só a filosofia de Hebert Spencer se ajustava a realidade, sua própria filosofia veio da tentativa de aprofundar os fundamentos do sistema spenceriano, mas depois, semelhante tarefa o levou a repudiar o sistema spenceriano e não cessou de combater daí em diante.

Suas obras são: “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência” (1889), “Matéria e Memória” (1896), “O riso” (1900), “Introdução à Metafísica” (1903), “A Evolução Criadora” (1907) e “As duas fontes da moral e da religião” (1932).

Bergson nasceu em Paris em 1859. No começo ele se dedicou à matemática e a mecânica, mas posteriormente dedicou-se a filosofia, na École Normale, onde cursou Ollé-Laprune e Boutroux. Depois de laureado, ensinou durante alguns anos em diversos liceus. Em 1900 ele foi chamado para a cátedra de filosofia do Collège de France, que manteria até o ano de 1924. Eleito membro da Academia Francesa, em 1927 lhe foi atribuído o prêmio Nobel de literatura. Bergson era de origem judaica, mas nos últimos anos de sua vida aproximou-se do catolicismo. Morreu em 1941, em uma Paris ocupada pelos nazistas.

Matéria e Memória

Em sua obra “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência”, Bergson nos mostra duas realidades, a realidade externa e a interna. A realidade externa é o tempo espacializado, mecânica e nunca nova por ser sempre repetitiva, ela seria a matéria, já a realidade interna é o tempo da experiência concreta ou duração da consciência, ela é a unidade do eu, sempre criadoramente nova, esta realidade interna seria o espírito. O problema da passagem entre essas duas realidades Bergson nos mostra no livro “Matéria e Memória”.

Ele vai contra as seguintes teorias: paralelismo psicofísico, que nos diz que o estado mental e cerebral são modos diversos de falar a mesma coisa ou processo; evolucionismo materialista, onde um estado mental (consciência) constitui um epifenômeno ou uma simples função do cérebro. Contra essa redução do espírito à matéria Bergson mostra que o cérebro não explica o espírito e na consciência humana há muito mais do que no cérebro correspondente.

Nas descobertas da psicofisiologia podemos destacar três momentos distintos da atividade da consciência: a memória, a recordação e a percepção. A memória coincide com a consciência, nela fica todo o nosso passado, tudo o que sentimos, pensamos e quisemos. A memória espiritual é a duração da consciência e dela se distingue a recordação, pois devemos prestar atenção no futuro, então pegamos somente o necessário do passado para nos orientarmos no presente, este processo de recordação útil e esquecimento do que não serve ao presente e realizado pelo corpo e cérebro. Passa-se pelo cérebro uma parte muito pequena do processo da consciência, ou seja, só o que pode se traduzir em movimento, é por isso que na consciência há muito mais do que no cérebro correspondente.

Necessitamos de mecanismos ligados ao corpo para realizarmos a memória espiritual, mas esta memória espiritual é totalmente independente do corpo. Por isso, uma lesão no cérebro não atinge a consciência, mas sim a vinculação entre consciência e realidade, pois a consciência permanece intacta, só se perde o contato com as coisas.

A nossa realidade é orientada para a ação que se faz através da percepção presente, que é orientada pela recordação, como imagens do passado que a memória recolhe ao longo do tempo. Assim temos sempre uma ligação entre memória e percepção, tendo em vista a ação.

O corpo, que seria a percepção, limita a liberdade da consciência, que é a memória, e a percepção, por sua vez, entra no fluxo da vida do eu, e se funde na memória. Assim, a verdadeira relação entre matéria e memória está no fato de que a memória assume o corpo de uma percepção qualquer em que ele se insere e, por outro lado, a percepção é reabsorvida pela memória e se faz pensamento. O corpo limita a vida do espírito através da ação, e o espírito transpõe os limites do corpo por toda parte.

Autor: João Paulo Rodrigues

Bibliografia:

Bergson, Henri. Matéria e Memória. Tradução de Paulo Neves da Silva. São Paulo, Editora Martins Fontes, 1990.

Bochenski, J. M. A Filosofia Contemporânea Ocidental. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo, Herder, 1968.

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