Derrida – Desconstrução – Não há nada fora do texto

Jacques Derrida nasceu na colônia francesa da Argélia em 1930, e faleceu em 2004. Tinha sonhos de se tornar jogador de futebol profissional, mas também se interessava muito por filosofia em sua juventude. O seu interesse por filosofia venceu, e, em 1951, ingressou na École Normale Supérieure em Paris. Em 1986 assumiu o posto de professor na Universidade de Califórnia. Suas principais obras são: Gramatologia, A escritura e a diferença, A voz e o fenômeno e Políticas da amizade. Derrida é considerado um dos filósofos mais controversos do século XX. Sua filosofia é ligada à complexa abordagem da “desconstrução”, que é cheia de nuances acerca da maneira de como se lê e se compreende a natureza dos textos escritos. Para entendermos sua famosa frase “não há nada fora do texto”, presente no livro Gramatologia, é necessário examinarmos sua abordagem desconstrutivista.

Frequentemente, diante de qualquer livro, acredita-se que o que há escrito ali é algo que pode ser entendido ou interpretado como um todo relativamente autossuficiente. No caso dos textos filosóficos, deduzimos que eles são sistemáticos e lógicos. Por exemplo, se vamos na livraria e compramos uma cópia do livro “A Política”, do filósofo Aristóteles, imaginamos que, se lermos o livro, ao final teremos uma ideia razoável sobre o que possa ser a política e quais são as ideias principais de Aristóteles sobre o assunto. Porém, para o filósofo Derrida, os textos não funcionam dessa maneira. Isso se deve a questão de que, mesmo os textos mais diretos possuem aquilo que Derrida chama de “aporias”, que em grego antigo significa contradição, impasse ou dificuldade. Quando se exploram tais aporias em diferentes textos, o filósofo objetiva ampliar nosso entendimento sobre o que são e o que fazem os textos, assim como demonstrar a complexidade que está oculto até nas obras aparentemente mais simples.

Por isso, Desconstrução é um modo de ler os textos para desvendar paradoxos e contradições ocultas, pondo inclusive em dúvida a relação entre linguagem, pensamento e ética. Aqui é necessário apresentar um outro termo técnico importante do vocabulário de Derrida, a saber, “diferência”. Esse conceito foi criado pelo próprio Derrida para destacar um aspecto curioso da linguagem.  Para compreender como a palavra diferência funciona, Derrida, ao realizar um jogo entre as palavras diferir e adiar, considera como esse adiar e diferir podem realmente ocorrer na prática. Vejamos o exemplo: imagine que eu diga “o gato…”, então adicione “que meu amigo viu…”, após uma breve pausa, digo “no jardim era preto e branco…” e continuasse assim por diante. A significação da palavra “gato” do modo como a estou usando é continuamente adiado quanto mais informações são transmitidas simultaneamente. Caso eu tivesse sido interrompido depois de dizer “o gato…” e não mencionasse as outras partes sobre o amigo ou o jardim, o significado de “gato” teria sido diferente. Resumindo, quanto mais acrescente algo ao que digo, mais o significado do que já disse é revisado, pois o significado é adiado na linguagem. Além disso, o significado de “gato” não pode ser considerado algo que repousa na relação entre as minhas palavras e as coisas reais do mundo, já que a palavra assume seu sentido a partir de sua posição em um sistema de linguagem total. Por isso, a palavra “gato” faz sentido não porque há uma ligação misteriosa entre a palavra e o gato real, mas sim porque tal palavra difere de “cachorro” ou “zebra”. Portanto, os conceitos de adiar e diferir presentes em diferência dizem algo um tanto estranho sobre a linguagem em geral. Assim, de um lado, o significado de qualquer coisa que dizemos é sempre adiado, pois depende do que acrescentamos e, por outro lado, o sentido de qualquer palavra que usamos depende de todas as coisas diferentes que não exprimimos, pois o sentido não é autossuficiente, nem mesmo dentro do próprio texto.

Vamos supor que eu tento explicar o que o filósofo Derrida quer dizer quando cita que “não há nada fora do texto”, porém, nunca posso explicar inteiramente essa ideia, porque o significado do que digo depende do que eu digo depois e o sentido das palavras que uso depende de sua relação com as palavras que não uso. Portanto, o significado é sempre incompleto, assim, falo mais para esclarecer mais as coisas, tornando constante o ciclo de significação. Desse modo, minha explicação sobre a frase de Derrida pode evoluir até que fique infinitamente extensa, compreendendo assim que não há nada fora do texto.

De acordo com o filósofo Derrida, diferência é um aspecto da linguagem do qual nos tornamos cientes graças à escrita. Desde a Grécia Antiga, os filósofos desconfiam da linguagem, como é o caso de Sócrates, que apresenta a ideia de que a escrita seria apenas a “aparência da sabedoria”, e não sua realidade, já que o ato de escrever era visto como um pálido reflexo da palavra falada, esta que era o meio de comunicação principal. Porém, segundo Derrida, a palavra escrita nos apresenta algo sobre a linguagem que a palavra falada não mostra. Para Derrida, devemos nos libertar da ideia de relacionar o significado da palavra com “presença”, como se o significado real de “gato” pode ser encontrado na presença de um gato no meu colo, afinal, sem o autor presente para pedir desculpas e nos explicar aquilo que falou, começamos a notar as complexidades, dificuldades e impasses daquilo que foi escrito, assim, a linguagem começa a parecer algo um pouco mais complexa.

Quando o filósofo diz que “não há nada fora do texto”, ele sugere que, se a gente considerar seriamente a ideia de que o significado é uma questão de diferência, a gente deve sempre manter acesso o fato de que o significado nunca é tão direto quanto pensamos que é, e que tal significado sempre estará sujeito à desconstrução. Além disso, em nosso pensamento, escrita e fala estamos sempre implicados em todo tipo de questões políticas, históricas e éticas que não podemos nem mesmo reconhecer ou admitir, por isso é que podemos entender a desconstrução inclusive como uma prática ética, já que, ao ler um texto de maneira desconstrutivista, nós podemos questionar as alegações expostas e desvelar as questões éticas difíceis que podem ter ficado ocultas. Michel Foucault, contemporâneo de Derrida, criticou o pensamento do filósofo por este ser intencionalmente obscuro, sendo às vezes impossível entender qual era sua tese real. Porém, Derrida poderia contrapor tal crítica dizendo que o próprio conceito de tese seria baseada na noção de “presença” que o mesmo filósofo tentou confrontar. Mesmo parecendo evasivo, tal contraposição seria compreensiva ao admitirmos que a própria ideia de que “não há nada fora do texto” não está fora do texto. Assim, ao considerar essa ideia seriamente, trataríamos ela de forma cética, desconstruindo-a, e desse modo iriamos explorar as dificuldades, impasses e contradições que se ocultam dentro dela, e que mesmo a ideia explicada nesse texto está sujeita à diferência.

Referência:

BUCKINGHAM, Will et al. O livro da filosofia. Tradução de Douglas Kim. São Paulo: Globo, 2016.

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