ÉTICA SEGUNDO PLATÃO

Para o filósofo Platão, a virtude e a justiça são conceitos eternos que a alma contemplou no Mundo das Ideias antes de encarnar-se. O mundo das ideias, teoria desenvolvida pelo filósofo Platão, apresenta a noção de dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível. Para o filósofo, o mundo sensível é esse mundo que nós percebemos através dos nossos sentidos, onde podemos, por exemplo, ver os exemplos de algo virtuoso ou justo. Porém, para Platão, os verdadeiros conceitos de virtude e justiça encontram-se no mundo inteligível, pois é lá que estão as verdadeiras ideias acerca do que é a virtude e a justiça, algo que só podemos conhecer caso a gente pratique o que o Platão chamou de reminiscência, ou seja, nós devemos nos relembrar daquilo que a nossa alma já contemplou no mundo das ideias, pois, segundo Platão, a nossa alma é imortal e já sabe o que é a virtude e a justiça, por isso, só precisamos nos recordar acerca de qual é o verdadeiro significado desses conceitos.

Por isso, podemos dizer que Platão é partidário de uma concepção dualista de ser humano, a saber, o corpo e a alma, pois ele postula como principal virtude o desligamento das realidades sensíveis para que possamos alcançar as ideias perfeitas. Dentre essas ideias, podemos citar aqui os valores éticos fundamentais, pois, à medida que nos aproximamos do mundo das ideias, não ficamos somente mais sábios, mas ascendemos também em conduta ética, tornamo-nos mais virtuosos. Os filósofos gregos apresentam a noção de uma relação entre verdade, ética e beleza, pois, para eles, esses conceitos estão interligados, pois aquilo que é verdadeiro é ao mesmo tempo ético e belo, e tais conceitos só podem ser compreendidos em ligação mútua.

Platão apresenta três diferentes partes para a alma, cada uma com uma função: a alma concupiscível, a alma irascível e a alma racional.

alma concupiscível se trata de uma parte situada no nosso baixo ventre e é responsável pelas coisas ligadas ao corpo, como a nossa vontade natural, os nossos desejos naturais, coordenando as nossas inclinações corporais, tais como, comer, beber, dormir, entre outras coisas ligadas ao que é mais mundano. Por isso, essa parte da alma está sujeita à corrupção, pois podemos comer demais ou de menos, dormir demais ou de menos.

alma irascível situa-se no nosso peito, no nosso peitoral. Essa parte da alma está ligada aos nossos sentimentos, como o amor, a tristeza, a paixão, a raiva e a melancolia. Por isso, a alma irascível apresenta uma tendência à irritabilidade e está de prontidão contra qualquer tipo de ameaça ou perigo que possa acontecer. Essa parte da alma também está sujeita à corrupção, pois tanto os nossos sentimentos bons quanto ruins podem nos prejudicar, caso a gente não consiga controlá-los.

A terceira parte da nossa alma é a parte mais nobre, a saber, a alma racional. Essa parte é responsável pela produção do nosso conhecimento, por isso ela se situa em nossa cabeça. A alma racional não está sujeita à corrupção, pois é uma espécie de princípio divino no interior de cada pessoa, e é a parte que está mais ligada ao mundo das ideias.

Portanto, o ser humano, que é possuidor das almas concupiscente, irascível e racional, deve deixar que a alma racional controle todo o seu viver, porque, assim, o homem racional promove a contemplação do Mundo das Ideias e, captando de lá do mundo inteligível a ideia de bem, ele poderá viver de modo virtuoso e justo. Assim agindo, ele atingirá a felicidade.

Por isso, para Platão, agir bem é agir segundo a alma racional, já agir mal é deixar os nossos instintos e os nossos sentimentos conduzirem a nossa vida. A diferença entre as funções irracionais e a função racional é a base da estrutura da ética platônica, pois, para Platão, o perfeito deve governar o imperfeito, a função superior deve coordenar as funções inferiores, a alma racional deve governar a alma irascível e a alma concupiscível. Sem essa condição não é possível alcançar a excelência ética. Agora, de que modo isso ocorre? De acordo com o Platão, a nossa alma racional controla a nossa alma concupiscível através da virtude da temperança, ou seja, devemos equilibrar os nossos desejos naturais para que a gente não cometa excessos e nem faltas, para que a gente possa saciar nossas vontades naturais de modo equilibrado. E a nossa alma racional controlaria a nossa alma irascível por meio da virtude da prudência, ao nos precaver dos males que os nossos sentimentos podem nos trazer, ou seja, pensando antes de agir, para que os nossos sentimentos não nos façam agir de forma imprudente. Em nenhum momento o Platão diz para a gente eliminar nossa parte da alma concupiscível ou irascível, mas sim para que a gente controle nossas partes mais corruptíveis, ao agir com equilíbrio e moderação.

Além disso, Platão nos diz que o lado ético do ser humano é a continuação de seu lado público, pois não deve existir uma separação nem entre o modo de viver do cidadão na polis nem enquanto indivíduo. Por isso é que, para o filósofo, o ser humano sábio deverá ter a virtude como base de vida e o conceito de justiça como o mais elevado, tanto no ambiente público quanto no ambiente privado. Mas, como podemos adquirir a virtude? Para Platão, a virtude não se adquire, se cultiva, pois é uma característica de nossa alma racional, que já conheceu esse conceito no Mundo das Ideias. Por isso, o homem virtuoso é aquele cuja alma racional controla as almas irascível e concupiscente, quer dizer, o que se deixa levar pelo lado intelectual do ser humano, e, assim agindo, conhece a ideia do Bem. E como podemos cultivar a justiça? Segundo Platão, quando se vive sob o domínio da alma racional, o homem estará permanentemente lembrando-se do Mundo das Ideias, sempre se voltando a ele, pois, viver de forma justa é a consequência dessa contemplação do Sumo Bem que o sábio pratica.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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