ÉTICA SOFISTA E ÉTICA SOCRÁTICA

Sócrates sempre esteve em debate com os sofistas, o que podemos observar nos livros de Platão, que mostra Sócrates sempre debatendo na maioria das vezes com algum sofista, sobre os mais variados tipos de assuntos. E na ética não é diferente, afinal, o modelo ético de ambas as partes se interliga com as suas respectivas teorias do conhecimento.

Segundo o sofista Protágoras, o homem é a medida de todas as coisas, ou seja, a verdade seria relativa, pois seria considerado verdadeiro aquilo que estivesse de acordo entre os homens, pois, através da arte da retórica, um bom argumentador poderia convencer o outro de sua verdade. Essa posição relativa dos sofistas foi alvo de críticas na tradição filosófica do ocidente, afinal, se formos levar isso ao extremo, para os sofistas, mais importante do que conhecer a verdade seria convencer o outro de sua verdade, mas é bom lembrar que os sofistas foram importantes para o contexto de Atenas em sua época, afinal, com o desenvolvimento da recém criada democracia, aqueles que conseguissem desenvolver um bom diálogo teriam um local de destaque na política da época, e era isso o que principalmente os sofistas ensinavam, pois eles eram especialistas em oratória e ensinavam a arte da retórica, a arte de poder debater bem, de poder fazer um bom discurso, para assim preparar os homens para a vida em sociedade. Os sofistas defendiam que não existiam parâmetros universais para a ética, portanto, os valores éticos não passariam de um mero acordo entre os homens, e por isso os valores não seriam universais, mas sim transitórios. Desse modo, os sofistas acreditavam que virtuoso seria aquele que conseguisse convencer os demais sobre os seus argumentos, pois domina assim a arte da retórica. Por isso, ser virtuoso é desenvolver a capacidade de convencimento, e os valores seriam definidos conforme o desenrolar do debate.

Sócrates não concordava com os sofistas, pois acreditava que existiam valores éticos universais, que poderiam ser alcançadas e cultivados por todas as pessoas, pois os valores éticos estariam fundados sobre a alma humana, aquilo que Sócrates chamava de psiqué, que é onde está a consciência, o caráter, a vontade, a racionalidade do ser humano. Para Sócrates, o corpo deve ser instrumento a serviço da alma, da psique, na busca pelo conhecimento, lembrando que o conhecimento está no interior de cada ser humano, e é o conhecimento quem tem a capacidade de libertar o homem, conhecimento este que é alcançado por meio do método dialético proposto por Sócrates, passando pelas fases da ironia e da maiêutica, a saber, na ironia o indivíduo reconheceria a sua própria ignorância, como nós podemos nos recordar na famosa frase “só sei que nada sei”, e na maiêutica, ou seja, “dar à luz” em grego, o indivíduo poderia então alcançar o autoconhecimento, que está bem proposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, e desse modo alcançar o conhecimento sobre o mundo. Assim, segundo o Sócrates, quanto mais o ser humano tem acesso ao conhecimento, mais ele alcançará a virtude, por isso é que podemos definir a ética socrática como sendo um intelectualismo ético, pois é por meio da razão que o homem pode ser justo e praticar a justiça. A ligação entre razão e ética é muito forte entre os filósofos gregos clássicos, pois para eles existia uma interdependência entre a verdade, o belo e o bom, não sendo possível pensar um desses conceitos sem a sua devida ligação com os outros dois.

Sobre o conceito liberdade, podemos dizer que para Sócrates a liberdade seria a capacidade que o ser humano tem de dominar a si mesmo e suas paixões, ou seja, é o domínio da racionalidade sobre os instintos. Conforme o ser humano desenvolve a sua racionalidade, mais ele alcança o autodomínio, o que proporciona também a felicidade ao ser humano, pois, para Sócrates, alcançamos a felicidade quando alcançamos a virtude, e esta só pode ser alcançada na busca pelo conhecimento. Portanto, não existe o uso de violência no debate dialético que Sócrates propõe em seu método dialético, pois, de acordo com o Sócrates, a ignorância e a falta de racionalidade, ou seja, a falta de conhecimento é o que desenvolve a violência e a maldade no indivíduo.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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