ÉTICA UBUNTU

Segundo o professor Bas’Ilele Malomalo, a ética Ubuntu tem sua origem na África, mais especificamente das línguas do povo banto e zulu, pertencentes ao território da República da África do Sul, país do famoso Nelson Mandela. Sua etimologia possui diversos significados, mas uma de suas interpretações pode ser traduzida por: “Sou o que sou pelo que nós somos”.

Portanto, de acordo com o ubuntu, ser um humano é afirmar a sua humanidade através do reconhecimento da humanidade dos outros seres humanos, por meio do estabelecimento das relações humanas com os outros. A ética do ubuntu apresenta como máximas a caridade, o reconhecimento do outro, o respeito mútuo e a inclusão de todos. Assim, ubuntu possui significados humanísticos como a solidariedade, a cooperação e a generosidade, tendo por objetivo o bem-estar de todos os seres humanos. Foi inclusive por isso que a Canonical escolheu esta palavra para nomear sua distribuição gratuita do sistema operacional Linux.

Estando presente em todos os povos da África subsaariana, o ubuntu é o elemento central na filosofia africana, pois compreende o mundo como uma ligação entre o divino, a comunidade e a natureza, já que, por ser a África o berço da humanidade, nossos ancestrais desenvolveram a consciência ecológica, ao perceber-se como pertencentes aos 3 mundos: dos deuses e antepassados, dos seres humanos e da natureza. Com o passar do tempo, conforme vão ocorrendo as migrações intercontinentais, esse entendimento de mundo como uma complexidade vai se espalhando e se expressando nas sociedades pré-modernas, com suas línguas, mitos, religiões e culturas.

Para Bas’Ilele Malomalo, a ideia africana de mundo é antropocêntrica, não no sentido absolutista da filosofia proveniente do iluminismo ocidental, na qual o ser humano acha que é o centro do mundo e que pode tudo, mas sim no sentido relativista, na qual o ser humano entende que que nem tudo depende de sua própria vontade, pois depende também da vontade dos outros, somente alcançando assim a felicidade. Os outros são entendidos aqui como: os orixás, os ancestrais, a família, a comunidade e a natureza. A felicidade só pode ser delineada no contexto das relações sociais, sendo compreendida como o que faz bem para toda a coletividade ou ao outro. Por isso, o ser humano é responsável pela manutenção do equilíbrio do todo, afinal, as pessoas dependem de outras pessoas para serem pessoas.

De acordo com Tshiamalenga Ntumba, a ética ubuntu deve ser caracterizada como a prática da abertura ao diferente, ao percebê-lo como parte de nós. A existência está na interação entre as 3 dimensões da cosmovisão africana citadas aqui anteriormente, por isso, as crises econômicas, políticas, sociais e naturais estão ocorrendo porque o ser humano se esqueceu de cuidar do “nós ecológico”.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

https://ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/14998/eu-so-existo-porque-nos-existimos-a-etica-ubuntu

https://www.mundoubuntu.com.br/sobre/curiosidades-do-ubuntu/63-origem-da-palavra-ubuntu#:~:text=Ubuntu%20%C3%A9%20uma%20antiga%20palavra,meio)%20de%20outras%20pessoas%22.

RAMOSE, Mogobe B. A ética do ubuntu. Tradução para uso didáticode: RAMOSE, Mogobe B. The ethics of ubuntu. In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, 2002, p. 324-330, por Éder Carvalho Wen. Disponível em: https://filosofia-africana.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/mogobe_b._ramose_-_a_%C3%A9tica_do_ubuntu.pdf

RAMOSE, Mogobe B. African Philosophy through Ubuntu. Harare: Mond Books, 1999, p. 49-66. Tradução para uso didático por Arnaldo Vasconcellos. Disponível em: https://filosofia-africana.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/texto16.pdf

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