HABERMAS – AGIR INSTRUMENTAL E AGIR ESTRATÉGICO

Para Marx, Weber, Horkheimer e Adorno, a racionalização social está ligada ao conceito de racionalidade instrumental ou estratégica dos contextos das ações, e, de outro lado, se encontra acima deles, uma racionalidade social abrangente na qual se mede o status relativo dos processos de racionalização representados de modo empírico, “seja no conceito da associação de produtores livres, nos modelos históricos da condução eticamente racional da vida, ou na ideia de um tratamento fraterno diante da natureza regenerada” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 268).

Os conceitos de ação que tais filósofos elencados apresentam não são complexos o suficiente para apreender nas ações sociais os aspectos iniciais da racionalização social, porém, a teoria do agir comunicativo pode estar unida com a teoria dos sistemas, pois a racionalização de orientações para o agir comunicativo e de estruturas do mundo da vida é diferente do avanço da complexidade em sistemas acionais (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 268).

Weber lista, segundo Habermas (2012, v. 1, p. 287), um enorme número de fenômenos que descrevem o racionalismo da cultura ocidental, entre eles estão:

A ciência moderna, que confere forma matemática ao saber teórico e o submete a provas com auxílio de experimentos controlados […], a atividade sistemática das ciências, organizadas de forma universitária […], as doutrinas jurídicas cientificamente sistematizadas […], a administração moderna do Estado por meio de uma organização racional do funcionalismo público, operante com base no direito estatutário; além disso, a circulação mensurável do direito privado e a empresa capitalista operando em busca do lucro, o que pressupõe a separação entre conjunto doméstico e estabelecimento comercial ou industrial […], a ética econômica capitalista, como parte de uma condução racional da vida (HABERMAS, 2012, v. 1, pp. 287-8).

Weber descreve então um modelo teleológico da ação, estabelecendo a subjetividade como um desejo pré-comunicativo da ação. A ação praticada se dá através de interesses próprios – seja para conquistar poder, obter riqueza, cumprir valores, buscar satisfação de paixões e desejos, etc. – ou seja, tais objetivos utilitaristas, apresentados detalhadamente como fins específicos para cada situação, são manifestações subjetivas, na qual os sujeitos que praticam a ação podem ligar tais manifestações subjetivas com sua atividade teleológica (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 487).

Para Habermas (1987c, p. 58), a racionalidade instrumental, fundada no saber empírico, se guia por meio de regras e estratégias técnicas, pois tal validade dependeria de enunciados empiricamente verdadeiros. Portanto, as ações sociais individualizadas são mediadas por interesses subjetivos, tomando uma visão utilitarista. Em outras palavras, “A racionalidade instrumental de uma ação é medida de acordo com o planejamento efetivo do emprego de recursos diante de propósitos dados” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 313). Além do mais, “a razão instrumental é concebida em termos das relações entre sujeito e objeto. A relação interpessoal entre sujeito e sujeito, determinante para o modelo das trocas, não tem importância constitutiva para a razão instrumental” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 652). Portanto, no entender de Habermas (2012, v. 1, p. 670), “a razão instrumental é uma razão ‘subjetiva’ também no sentido de que ela dá expressão às relações entre sujeito e objeto sob a perspectiva do sujeito que conhece e age, e não do objeto que foi percebido e manipulado”. Para concluir, a ação instrumental, por ser solitária, sempre será uma ação monológica (HABERMAS, 1987c. p. 31).

Habermas (2012, v. 1, pp. 163-4) mostra que a razão estratégica é aplicada “quando pelo menos um ator que atua orientado a determinados fins, revela-se capaz de integrar ao cálculo de êxito a expectativa de decisões”, ou seja, a razão estratégica baseia-se em uma orientação da ação para o êxito através de uma reflexão das condições apresentadas. Porém, o êxito da ação depende do sistema envolvido[1], por exemplo: o êxito no sistema econômico será medido pelo meio dinheiro, já no sistema político o êxito será medido pelo meio poder. Portanto, “a estratégia na economia deve ser maximizar o benefício em função do custo na obtenção do lucro, enquanto na política tem que ser a conquista da confiança dos eleitores traduzida em votos” (DURÃO, 2006, p. 103).

A ação instrumental orienta-se por regras técnicas que se apoiam no saber empírico. Estas regras implicam em cada caso prognoses [hipóteses] sobre eventos observáveis, físicos ou sociais; tais prognoses podem revelar-se verdadeiras ou falsas. O comportamento da escolha racional orienta-se por estratégias que se baseiam num saber analítico. Implicam deduções de regras de preferência (sistemas de valores) e máximas gerais; estas proposições estão deduzidas de um modo correto ou falso. A ação racional teleológica realiza fins definidos sob condições dadas; mas, enquanto a ação instrumental organiza meios que são adequados ou inadequados segundo critérios de um controlo eficiente da realidade, a ação estratégica depende apenas de uma valoração correta de possíveis alternativas de comportamento, que só pode obter-se de uma dedução feita com o auxílio de valores e máximas (HABERMAS, 1987c, p. 57).

O agir instrumental parte da ideia de que o ator se orienta primeiramente pela conquista de um fim exatamente estabelecido, conforme propósitos claramente delineados. Aqui, o ator seleciona os meios mais favoráveis em uma dada situação e calcula possíveis consequências da ação, prevendo tais consequências como condições de segunda ordem do êxito na qual queira alcançar. O objetivo a ser alcançado é determinado como ocorrência de um estado desejado no mundo, estado esse que está orientado por um fim (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 495). Portanto, o agir instrumental se orienta por atos perlocucionários – e não ilocucionários, como é o caso do agir comunicativo – já que as ações instrumentais ocorrem quando um falante age orientado pelo êxito e liga reciprocamente ações de fala a intenções, instrumentalizando tais ações para determinados fins (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 502). Além disso, Habermas (2012, v. 1, p. 510) considera como “agir estratégico mediado pela linguagem as interações em que ao menos um dos participantes pretende ocasionar com suas ações de fala efeitos perlocucionários em quem está diante dele”.

Habermas (2012, v. 1, pp. 495-6) chama de ação instrumental a ação que seja orientada pelo êxito, observado através do aspecto do cumprimento de regras técnicas da ação e quando calculamos o grau de efetividade de uma intervenção por meio de um relacionamento entre estados e acontecimentos. Habermas chama de agir estratégico quando se considera a ação sob o aspecto do cumprimento de regras de escolha racional e quando avaliamos o grau de efetividade da influência que um oponente racional pode exercer em suas decisões. Ações instrumentais têm a possibilidade de se associar às interações sociais, enquanto ações estratégicas são, elas mesmas, ações sociais. Porém, o agir comunicativo não diz respeito aos planos de ação – dos atores envolvidos – que são coordenados através de cálculos egocêntricos do êxito almejado, mas sim através de atos de entendimento, pois “perseguem seus fins individuais sob a condição de que sejam capazes de conciliar seus diversos planos de ação com base em definições comuns sobre a situação vivida[2]” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 496).

Habermas (2012, v. 1, pp. 496-7-8) não pretende dizer que a mesma ação pode ser descrita ora como ação estratégica e ora como agir comunicativo, mas sim que se podem diferenciar as ações sociais quanto ao proposto critério: ou os atores assumem uma posição orientada pelo êxito (ação estratégica), ou tomam para si uma atitude orientada pelo entendimento (agir comunicativo), por meio do saber intuitivo dos próprios participantes. Lembrando novamente que o entendimento é considerado um processo de união entre atores capazes de falar e agir, e que o comum acordo almejado comunicativamente se mostra diferenciado sob a forma de proposições, já que, por meio dessa estrutura linguística, o comum acordo não se convence por simples influência externa, mas necessita sim ser aceito pelos participantes como válido.

Processos de entendimento visam a um comum acordo que satisfaça as condições de um assentimento racionalmente motivado quanto ao conteúdo de uma exteriorização. Um comum acordo almejado por via comunicativa tem um fundamento racional, pois nenhuma das partes jamais pode impô-lo: nem de modo instrumental, pela intervenção imediata na situação da ação, nem de modo estratégico, pela influência calculista sobre decisões de um oponente. […] O comum acordo baseia-se em convicções partilhadas. O ato de fala de um só tem sucesso quando o outro aceita a oferta aí presente; ou seja, é preciso que […] o outro assuma posição diante de uma pretensão de validade fundamentalmente passível de crítica (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 498).

Então, enquanto a linguagem natural for utilizada como fonte de integração social, trata-se de agir comunicativo, agora, caso a linguagem seja utilizada como meio para a transmissão de informações, trata-se aqui de agir estratégico. Portanto, na ação estratégica o efeito da coordenação das ações irá depender da influência dos atores uns sobre os outros e através da situação das ações, transmitidas sob atividades não-linguísticas (HABERMAS, 1990, p. 71). Em outras palavras, a ação estratégica se apoia na razão teleológica de planos particulares de ação, já o agir comunicativo encontra a sua força na razão motivadora de atos de entendimento comunicativo[3].

Para encerrar esse capítulo, pode-se dizer que tanto o agir comunicativo quanto o agir instrumental e o agir estratégico são elementos fundamentais da teoria da sociedade de Habermas.

Autor: João Paulo Rodrigues

[1] “O êxito da ação também é dependente de outros atores que se orientam cada qual segundo seu próprio êxito e se comportam cooperativamente apenas na medida em que isso corresponda a seu cálculo egocêntrico das vantagens. Sujeitos que agem de maneira estratégica, portanto, têm de estar muito bem equipados cognitivamente, a ponto de que para eles não possa haver somente objetos físicos no mundo, mas também sistemas ocupados em tomar decisões” (HABERMAS, 2012, v. 1, pp. 169-70).

[2] Habermas “parte da distinção entre racionalidade comunicativa e instrumental. Tal distinção representa a base da teoria inteira e é introduzida por Habermas como um fato não ulteriormente questionável. Aos dois tipos de racionalidade correspondem duas formas de agir: o agir comunicativo e o agir instrumental. O primeiro distingue-se do segundo pelo fato de ser orientado pelo entendimento; sujeitos que agem de maneira comunicativa querem entender-se sobre algo. Em segundo lugar, ele é caracterizado por uma concepção da linguagem que vê nela um meio para o entendimento: ela pode servir também para outras finalidades e o agente pode visar simplesmente impor uma opinião subjetiva, manipular outros sujeitos ou tratá-los como meios para seus próprios fins (isso é chamado por Habermas de agir estratégico) ou alcançar uma determinada meta. O telos implícito da racionalidade, nesse caso, é ‘a manipulação instrumental’ e não, como no primeiro caso, o ‘entendimento comunicativo’” (PINZANI, 2009, p. 100).

[3] “Num derradeiro lance teórico, Habermas introduz o agir comunicativo como um tipo de atividade social que se caracteriza como uso de atos de fala orientados simetricamente por entendimento. É possível afirmar que o longo caminho percorrido abre perspectivas para um conceito de comunicação que possui, de um lado e mesmo que em sentido amplo, uma ligação com a teoria da verdade. De outro lado, ele se apresenta como ‘medium’ imprescindível para a produção de ordem social e como uma chave para abordagem de questões essenciais a uma teoria da sociedade, uma vez que os conceitos opostos que dele emanam, isto é, o de orientação por entendimento e o de orientação pelo sucesso, permitem deslindar por inteiro o campo dos conceitos da sociologia da ação” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. XXI).

Referências:

DURÃO, Aylton Barbieri. A Tensão entre Faticidade e Validade no Direito Segundo Habermas. ethic@, Florianópolis, v.5, n.1, pp. 103-120, Jun. 2006.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1987c.

______________. Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.

______________.Teoria do Agir Comunicativo. Trad. Paulo Astor Soethe. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. 2 v.

PINZANI, Alessandro. Habermas. São Paulo: Artmed Editora, 2009.

Deixe uma resposta