HABERMAS – SISTEMA

O sistema possui um equilíbrio que se autorregula, através da especificação funcional dos diferentes subsistemas que apareceram depois do desacoplamento entre mundo da vida e sistema. No sistema, as ações de cada indivíduo são estabelecidos por cálculos de interesse, que maximizam a utilidade. Além disso, o sistema é um conjunto social composto pelos mais variados mecanismos anônimos, dotados de lógica própria e que, na sociedade moderna, se fixou em subsistemas sociais diferenciados e regidos por regras estratégicas, por meios materiais ou técnicos: o subsistema Estado e o subsistema economia (VELASCO, 2003, p. 48). “O desenvolvimento do direito europeu durante a fase do absolutismo pode ser entendido basicamente como institucionalização de dois meios, que permitem à economia e ao Estado se diferenciarem em subsistemas” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 642). O Estado e a economia começam a ser considerados subsistemas na sociedade moderna, “ao lado de outros subsistemas sociais funcionalmente especificados; estes, por sua vez, encontram-se numa relação configurada como ‘sistema-mundo circundante’, o mesmo acontecendo com as pessoas e sua sociedade” (HABERMAS, 2003, v. 1, p. 18).

O aparato burocrático estatal e a economia capitalista desenvolveram uma autonomia sistêmica, transformando o poder e o dinheiro[1] em importantes meios anônimos de integração, que passam pelos indivíduos presentes no mundo da vida. Entretanto, o subsistema cultural trataria de regular a tensão intrassistêmica. Desse modo, as esferas de ação e áreas de sociabilidade não possuem mais conteúdos normativos, cuja consistência não depende diretamente das “orientações de ação” dos implicados por isto (VELASCO, 2003, p. 48). Portanto, o sistema renuncia todo tipo de conteúdo normativo da razão prática, e não se importa em apagar até esses últimos vestígios.

Os dois complexos institucionais em que Weber entende corporificadas de modo especial as estruturas modernas da consciência, e com base nos quais ele identifica de maneira exemplar os processos de racionalização social, são a economia capitalista e o Estado moderno. O que é “racional” aí? A partir da sociologia econômica e da sociologia da dominação, tem-se a impressão de que a atenção de Weber, quando fala de racionalização social, está voltada ao modelo organizacional concretizado nos mecanismos capitalistas e na instituição estatal moderna. A racionalidade dessas formas de funcionamento e institucionalização consiste, segundo Weber, em que primeiro os empresários e funcionários públicos, mas a seguir também os trabalhadores, estejam comprometidos com o agir [estratégico] (HABERMAS, 2012, v. 1, pp. 385-6).

Segundo as observações de Habermas (2012, v. 1, p. 444), através da sociologia de Weber acerca da economia, do Estado e do direito, pode-se perceber que, nas sociedades modernas, os processos de racionalização têm seu foco inicial apenas no saber empírico teórico e em aspectos do agir estratégico. Entretanto, a respeito da racionalidade prática, Weber percebe que não é possível institucionalizá-la de maneira autônoma, em outras palavras, com um sentido próprio do subsistema.

A ciência técnica busca certos interesses que Habermas toma inicialmente em sentido antropológico, pois a sobrevivência da humanidade é certificada através do trabalho social[2], necessitando assim do saber técnico e sua razão instrumental para a reprodução da existência material, surgindo então as ciências empírico-analíticas. De modo paralelo, aparece a razão comunicativa, que diz respeito à conservação da identidade pessoal dos sujeitos socializados, levando ao surgimento das ciências hermenêuticas interpretativas (PINZANI, 2009, p. 53).

Para Habermas (2012, v. 1, pp. 593-4), a Teoria Crítica proposta por Adorno e Horkheimer apresenta os pontos em comum entre a tese de Weber da racionalização e a crítica da razão instrumental de Marx-Lukács. Horkheimer possui a mesma ideia de Weber, acerca de que a racionalidade formal está subordinada à atual cultura industrial. Weber expõe a ideia de que há na racionalidade formal as determinações que possibilitam a ponderabilidade de ações, por meio da eficácia dos meios disponíveis (agir instrumental) e através da escolha dos meios segundo preferências (agir estratégico). “Formal” refere-se principalmente ao aspecto do agir estratégico, por não se tratar do julgamento material dos próprios valores das preferências dos sujeitos. O que chama a atenção é que tal contexto diz respeito apenas à estrutura de orientações da ação, determinada pela racionalidade estratégica, e não se leva em consideração os parâmetros da racionalidade moral-prática ou estético-prática.

De um lado, Weber ressalta o crescimento da racionalidade que aparece com a autonomização e diferenciação de processos de aprendizagem organizados de maneira científica, e com a autonomização e diferenciação de uma esfera cognitiva em sentido estrito, ou seja, “cadeias prolongadas de ações podem ser julgadas de maneira sistemática sob o aspecto da validade da verdade e da eficácia, bem como calculadas e melhoradas no sentido da racionalidade formal” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 594). Por outro lado, Horkheimer coloca como foco central a perda da racionalidade a partir do momento em que as ações podem ser apenas justificadas, planejadas e julgadas pela via dos aspectos cognitivos, tratando a racionalidade teleológica como racionalidade instrumental. Tal ironia presente no uso dessa linguagem se deve ao fato de que a razão, que para Kant diz respeito à faculdade de ideias na razão prática e no juízo estético, é distinguida com o seu contrário, em outras palavras, é reconhecida com a atividade do entendimento do sujeito cognoscente que pratica suas ações através de imperativos técnicos, já que, ao se levar em conta a ideia de razão, ela teria a obrigação de tomar para si realizações mais importantes do que apenas regrar as relações entre meios e fins, já que a razão deveria ser entendida como instrumento para se compreender e determinar os fins[3] (HABERMAS, 2012, v. 1, pp. 594-5).

Segundo Pinzani (2009, pp. 58-9), Habermas crítica Marx por este ter percebido que a reprodução social só ocorre através do trabalho[4] e não apontou a dimensão da interação (agir comunicativo) como outro tipo de reprodução. Assim, a teoria da sociedade de Habermas tem por base: o agir estratégico, que por meio do trabalho se obtêm a reprodução material; e o agir comunicativo, que por meio de normas ocorre uma interação social.

Enquanto Marx localizou os processos de aprendizagem evolutivamente relevantes (na medida em que encaminham as ondas de desenvolvimento das épocas) na dimensão do pensamento objetivante, do saber técnico e organizado, do agir instrumental e estratégico – em suma, das forças produtivas –, emergiram neste meio-tempo boas razões para justificar a hipótese de que, também na dimensão da convicção moral, do saber prático, do agir comunicativo e da regulamentação consensual dos conflitos de ação, têm lugar processos de aprendizagem que se traduzem em formas cada vez mais maduras de integração social, em novas relações de produção, que são as únicas a tornar possível, por sua vez, o emprego de novas forças produtivas (HABERMAS, 1983, pp. 13-4).

Nas sociedades capitalistas desenvolvidas existe, segundo Marx, um primado evolutivo da atividade econômica, em outras palavras, os problemas da economia estabelecem o campo de desenvolvimento da sociedade. Porém, essa supremacia não pode fazer com que reduzamos a relação complementar entre economia e Estado, ao compreendê-lo como uma comum relação entre base e superestrutura. Portanto, contra o monismo da teoria do valor, devemos contar com os meios dinheiro e poder, através dos subsistemas complementares economia e Estado que controlam o mundo da vida aos seus imperativos. Assim, a reificação decorre pela via da burocratização e da monetarização das esferas da vida pública e privada (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 617).

A sobrevivência e a evolução de uma sociedade depende então da união entre ação instrumental, ação estratégica e agir comunicativo, e não apenas instrumental, como havia assinalado Marx. Portanto, pode-se entender até aqui que a modernidade é a união entre o mundo da vida e o sistema[5], e que ambos “se necessitam e se complementam. E não se pode explicar a sociedade atual sem reconhecer sua existência” (VELASCO, 2003, p. 49).

Sob a perspectiva de Habermas (2012, v. 2, p. 217), toda teoria da sociedade que tenha por base a teoria do agir comunicativo está submetida a limitações, tento em vista a limitação do alcance do conceito mundo da vida que esteja alicerçado pelo agir comunicativo. Desse modo, Habermas pretende apresentar um conceito de sociedade que esteja apto a unificar o mundo da vida e o sistema, através da comprovação de uma teoria da evolução social que diferencie a “racionalização do mundo da vida” da “intensificação da complexidade dos sistemas sociais”, com o intuito de esclarecer e analisar de modo empírico toda a relação que Durkheim determinou entre as formas de integração social e os níveis de diferenciação do sistema[6].

Segundo Velasco (2003, pp. 48-9), Habermas constrói uma teoria da sociedade em dois níveis. No primeiro são combinadas a perspectiva externa do observador e a perspectiva interna do participante, fazendo com que as sociedades possam conceber de uma vez tanto o mundo da vida como também o sistema. Mas, se no mundo da vida é o agir comunicativo que permite a produção e reprodução de valores, normas e instituições, no sistema, os seus meios próprios trazem recursos de caráter monológico, com um marcado componente técnico-funcional. O mundo da vida não somente goza de princípios de autonomia frente à ciência e a técnica, como também possui valores e normas racionais especificas que não podem diluir-se mais nas normas da racionalidade cientifica. Podem-se chamar também os dois domínios da vida social como o “reino da liberdade” (mundo da vida) e o “reino da necessidade” (sistema). Percebe-se também que nas ações incorporadas no sistema se pressupõe também certa consensualidade e referência a normas, e nas ações integradas socialmente também se implicam certos cálculos estratégicos.

Segundo Habermas (2012, v. 1, pp. 386-7), o que equaliza organizacionalmente a economia capitalista e o Estado é a sua capacidade de concentrar, nas mãos dos empresários, todos os recursos objetivos de funcionamento[7], se tornando assim um requisito fundamental para a institucionalização do agir estratégico. Desse modo, para que o empresário capitalista possa agir de modo estratégico, trabalhando de maneira puramente calculável, é preciso um Estado burocrático que também funcione de modo estratégico, ou seja, que também trabalhe com base no cálculo[8].

Portanto, a racionalização social diz respeito ao predomínio de subsistemas do agir estratégico, mais especificamente na economia capitalista e no Estado moderno. Assim, o que é preciso explicar não é a condição estratégica do agir Estatal e econômico, mas sim a sua institucionalização, pois esta não tem a possibilidade de ser explanada com alusão a regulamentações estratégicas, já que “a normatização do agir racional-teleológico [agir estratégico] equivale a uma forma de integração social que justamente ancora as estruturas da condição racional-teleológica no sistema da personalidade e no sistema de instituições” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 388).

Conforme as observações de Habermas (2012, v. 1, p. 589), a anulação dos contextos normativos e o desprendimento do agir comunicativo frente às instituições tradicionais oprimem e sobrecarregam o agir comunicativo através de uma busca sempre maior por coordenação. Aliás, tipos novos de organizações conquistam o lugar que antes eram das instituições, através da sua formação baseada nos meios de comunicação, que desmancham a ligação entre o agir e os processos do entendimento, além de operar a coordenação por meio de valores estratégicos generalizados (dinheiro e poder). Portanto, “meios de direcionamento como esses substituem a linguagem enquanto mecanismo da coordenação de ações. Dissolvem a ligação entre o agir social e uma integração baseada no consenso de valores e ajustam o agir social a uma racionalidade [estratégica]” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 589). Ao assentar sua teoria da ação em uma via estreita, Weber, através da leitura de Habermas (2012, v. 1, p. 589), não reconhece o dinheiro e o poder como meios de comunicação que, após ocupar o lugar da linguagem, acabam por possibilitar a autonomização e a diferenciação de sistemas parciais do agir estratégico.

Esses meios [dinheiro e poder], e não indiretamente as orientações racional-teleológicas da ação, carecem de uma ancoragem institucional e motivacional no mundo da vida: a legitimidade da ordem jurídica e o fundamento moral-prático para campos de ação legalizados (isto é, campos de ação formalmente organizados) constituem elos que vinculam ao mundo da vida o sistema administrativo diferenciado pela via do poder e o sistema econômico diferenciado pela via do dinheiro. Weber tinha razão ao abordar esses dois complexos institucionais, à medida que pretendia decifrar a modernização como racionalização contraditória em si mesma (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 589-90).

Por um lado, a linguagem forma um meio que está isento da necessidade de um posterior certificado, pois os sujeitos comunicativos já estão inseridos nela. Por outro lado, o dinheiro, em sua funcionalidade, está longe de provocar uma suficiente “confiança sistêmica”, fazendo com que seja preciso então uma posterior ancoragem institucional, realizável somente através das instituições privadas da propriedade e do contrato (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 484). Os componentes estruturais do mundo da vida derivam pelo meio “formação linguística do consenso”, porque o agir comunicativo está inserido nos contextos do mundo da vida. Porém, o meio dinheiro trabalha de um jeito que a interação não chega a ter acesso a tais contextos vitais. Essa diferença torna essencial um religamento formal do meio no mundo da vida, que só é possível ocorrer, nas palavras de Habermas (2012, v. 2, p. 485), “mediante a figura da normatização do direito privado, o qual regula as relações de troca lançando mão por meio da propriedade e do contrato”.

A economia apenas se torna um subsistema diferenciado, através do meio dinheiro, assim que aparecem mercados e formas de organização que tem a capacidade de controlar monetariamente o intercâmbio permanente ao sistema e o intercâmbio com um entorno pertinente. As relações de troca entre a economia e o Estado se tornam então monetarizadas, ao se confirmar o aparecimento de instituições inovadoras (Estado fiscal e trabalho assalariado). Conforme as observações de Habermas (2012, v. 2, p. 486) “quando o poder representa um meio tal como o dinheiro, a relação entre a economia e o Estado pode ser concebida, de acordo com o modelo parsoniano, como dupla troca”.

No entender de Habermas (2012, v. 2, p. 487), Parsons transformou tanto o conceito de “dinheiro” quanto o conceito de “poder” em conceito de “meio”. A partir desse contexto, Habermas analisa e apresenta as analogias e as distinções entre os meios dinheiro e poder, identificando as características dos meios mais favoráveis para a institucionalização. O meio de controle “poder” retrata a incorporação simbólica de medidas de valor e não tem por base as realizações afetivas, nem o emprego da força física.

Portanto, o poder representa uma grandeza sujeita à alienação, contudo, ela não tem a capacidade de circular de modo livre igual ao dinheiro. Além disso, o poder apenas toma para si o entendimento de um meio quando não se liga a certos detentores ou a certos contextos. Entretanto, o poder tende a se unir facilmente à pessoa do poderoso e ao contexto do exercício do poder, enquanto que o dinheiro não é tão facilmente assim ligado à pessoa do rico e ao seu negócio. Outra diferença é que o poder não tem a capacidade de ser depositado de maneira igualmente segura tal qual o dinheiro é depositado nos bancos. Segundo Habermas (2012, v. 2, p. 490) “podemos interpretar, por exemplo, a missão que a direção de um partido recebe dos eleitores, de assumir o governo durante o período de um mandato, como um procedimento institucionalizado destinado a depositar o poder”. Mas é evidente que um potencial de poder assim depositado é passível de degeneração.

Para Habermas (2012, v. 2, p. 490), faz-se necessário a constante atualização e confrontação do poder do governo, através de testes e do uso demonstrativo, visto que, diferentemente do dono de um banco, não há a seguridade do depósito de seu poder. Então, a diferença entre o dinheiro e o poder se apresenta na forma das características da mensurabilidade da aptidão de circulação e da depositabilidade. Mas tais disparidades não são tão distantes assim, fazendo com que não seja necessária a desvalorização do conceito poder como meio, mesmo que o poder não seja passível de cálculo tal qual o dinheiro o é. A respeito da institucionalização do dinheiro e do poder, Habermas (2012, v. 2, p. 491) diz que “o dinheiro é institucionalizado por meio de institutos do direito privado burguês, tais como a propriedade e o contrato; ao passo que o poder é institucionalizado pela organização de cargos, regulada pelo direito público”.

O direito pela posse de dinheiro envolve o ingresso a mercados em que há a possibilidade de efetuar transações, e o direito de exercer o poder, por sua vez, envolve a ocupação de um posto no quadro de uma organização, através de relações de poder determinadas de modo hierárquico. Tendo em mente a ideia de que o poder é exercitado como “poder organizado”, ou seja, como sendo socialmente relevante, há então a possibilidade para se entender os distintos caminhos que o dinheiro e o poder percorreram, a saber: enquanto o dinheiro já circulava há muito tempo atrás, antes mesmo de assumir efeitos formadores de sistemas, o poder, por sua vez, aparece como uma autoridade ligada ao cargo e a posições no âmbito das condições modernas do poder legalizado e da administração racional (HABERMAS, 2012, v. 2, pp. 491-2).

Todavia, a diferença mais importante entre o meio poder e o meio dinheiro se encontra na ideia de que o poder precisa de uma base posterior de confiança, qual seja, a legitimação. E nesse sentido não há nenhuma analogia estrutural com o dinheiro. A administração da justiça e o emprego de penas garantem a ordem do direito privado contra conflitos, valendo também para o direito público. Assim, a partir do momento em que determinados conflitos relacionados com as relações de propriedade se convertem num conflito vasto, abarcando os fundamentos da ordem do direito privado, a legitimidade da ordem jurídica é posta em questão enquanto componente da ordem política. Portanto, nas palavras de Habermas (2012, v. 2, p. 494), “nas relações de poder, o equilíbrio – que sempre se encontra numa relação de troca ideal-típica – só pode ser restabelecido por meio da relação com fins coletivos legitimáveis”.

O meio “dinheiro” pode ser retroligado, por via da institucionalização jurídica, com o mundo da vida, estruturado comunicativamente; não obstante, ele não pode ser colocado na dependência da formação linguística de um consenso, como é o caso do meio “poder”, que necessita de legitimação (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 495).

Segundo Habermas (2012, v. 2, p. 509), nas interações motivadas de modo empírico são fixados os meios de controle poder e dinheiro. Estes meios sistematizam o trato racional estratégico através de valores calculáveis, tornando possível uma influenciação estratégica generalizada entre as decisões dos sujeitos da interação, deixando de lado os processos de formação provenientes do consenso oriundo da linguagem. Ao simplificar a comunicação linguística, o poder e o dinheiro se põem no lugar da linguagem através de uma generalização simbólica de prejuízos e compensações, fazendo com que o contexto de entendimento do mundo da vida, por meio do agir comunicativo, seja desvalorizado e submetido a interações fiscalizados por meios. Assim, o mundo da vida não se torna mais fundamental para a coordenação de ações[9].

Habermas (2012, v. 1, p. 443), percebe contradições na teoria weberiana da modernidade, quais sejam: por um lado, Weber acaba identificando a ética da atividade profissional e o sistema jurídico moderno com as duas inovações na qual Habermas atribui o surgimento do capitalismo, fazendo com que tenha sucesso uma corporificação da consciência moral regida por princípios. Com isso, certifica-se uma ancoragem racional-valorativa de orientações estratégicas da ação. Para Habermas, Weber apresenta um conceito complexo de racionalidade prática que tem como foco inicial uma disposição conjunta de um ponto racional-valorativo e estratégico da ação. Por outro lado, Weber acredita que a racionalização social se concretiza apenas através da racionalidade estratégica, já que o conceito de racionalidade que Weber apresenta foca somente em suas investigações da tradição cultural, não aplicando assim a racionalidade no plano das instituições. Contudo, deve-se notar que, nos subsistemas economia e Estado, os efeitos estruturadores se limitam ao ponto de vista do agir estratégico, e não do agir comunicativo.

De acordo com Habermas (2012, v. 1, p. 590) “somente com os conceitos atinentes ao agir comunicativo é que se abre uma perspectiva a partir da qual o processo de racionalização social se mostra contraditório desde o princípio”, apresentando também uma contradição entre a complexidade, cada vez maior, de sistemas parciais do agir comunicativo, através das quais os meios de direcionamento (dinheiro e poder) coordenam tanto as ações quanto a racionalização da comunicação cotidiana, esta última que deveria ser conectada a estruturas de intersubjetividade do mundo da vida, na qual a linguagem deveria ser o único medium para o entendimento.

Dessa forma, o que existe não é uma concorrência entre agir comunicativo e agir estratégico, mas sim entre princípios de integração social, já que, de um lado, o que se apresenta é o mecanismo de uma comunicação linguística que se orienta por meio de pretensões de validade, que provém da racionalização do mundo da vida e, de outro lado, estão presentes os meios de direcionamento que não necessitam da linguagem, por meio de sistemas autônomos e diferenciados, orientados através do agir estratégico. Portanto, é possível entender o paradoxo da racionalização apresentado por Weber, qual seja, a de que a racionalização do mundo da vida apresenta a possibilidade de um tipo de integração sistêmica que concorre com a integração social do agir comunicativo, fazendo o mundo da vida retroagir sob determinadas condições, desintegrando-o (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 590-1).

Para Habermas (2012, v. 2, p. 512) “a disjunção ampla entre mundo da vida e sistema foi uma das condições necessárias para que a sociedade de classes estratificadas do feudalismo europeu pudesse passar para a sociedade de classes econômicas, da modernidade”. Porém, o capitalismo moderno modifica as estruturas simbólicas do mundo da vida, subordinando tais estruturas aos imperativos do Estado e da economia, estes que se tornam diferenciados e autonomizados através dos meios dinheiro e poder, reificando assim as interações sociais.

Autor: João Paulo Rodrigues

[1] “Enquanto a produção de bens for organizada como produção de valores de troca, e enquanto a própria força de trabalho de quem produz for trocada como mercadoria, estará em ação outro mecanismo da coordenação de ações: as orientações da ação economicamente relevantes serão dissociadas dos contextos do mundo da vida e atreladas ao medium valor de troca (ou dinheiro). À medida que as interações não forem mais coordenadas por meio de normas e valores, mas pelo medium valor de troca, os que agem vão tendo de assumir um posicionamento objetivador uns em relação aos outros (e em relação a si mesmos). Diante disso, o próprio mecanismo da coordenação de ações defronta com eles como algo externo. As transações que se dão no medium do valor de troca esquivam-se da intersubjetividade própria ao entendimento mútuo linguístico, transformam-se em algo que tem lugar no mundo objetivo” (HABERMAS, 2012, v. 1, pp. 615-6). “Em 1963, [Parsons] publicou um artigo sobre o conceito de poder. Essa tentativa de interpretar o poder como um meio de controle ancorado no sistema político, estruturalmente análogo ao dinheiro, foi considerada por ele como um teste bem-sucedido para a universalizabilidade do conceito ‘meio’” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 468). “Na economia, o conceito “dinheiro” se comprovou empiricamente como um meio, ao menos em princípio; enquanto na ciência política foram feitas tentativas para aproveitar o conceito “poder” na investigação de processos eleitorais e na comparação entre sistemas internacionais” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 496).

[2] Segundo Weber o capitalismo sempre fez parte do processo civilizatório da humanidade, mas só começa a ser percebida uma lógica racional ordenada e um direito formal e normativo apenas com o desenvolvimento do capitalismo moderno ocidental. Esta concepção racional de trabalho está associada à ideia de vocação imposta por uma Ética religiosa (através da Reforma Protestante). Trabalho é estabelecido como o significado da existência do homem, o que possibilita uma produção qualitativa e quantitativa nas relações sociais de produção que traz consigo o lucro e a acumulação e priva o homem do pecado do prazer (SILVA, 2001, p. 04). Antigamente era a religião quem regulava o capitalismo, porém, hoje o capitalismo se tornou um subsistema independente já que a religião também se tornou subjetivista.

[3] “Apesar das ênfases diversas, Horkheimer segue as duas teses que constituem os componentes explicativos da diagnose weberiana de sua época: a tese da perda de sentido (1) e a tese da perda de liberdade (2); as diferenças só se evidenciam com a fundamentação dessas teses, quando Horkheimer se apoia sobre a interpretação proposta por Lukács da racionalização capitalista como reificação” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 595).

[4] Para Marx, conforme as observações de Habermas (2012, v. 1, p. 616), “à medida que o trabalhador assalariado, em toda sua existência, torna-se dependente do mercado, os processos de valoração anônimos invadem seu mundo da vida e vão destruindo a eticidade de uma intersubjetividade gerada por via comunicativa; e enquanto isso as relações sociais vão se transformando em relações puramente instrumentais”.

[5] “Do ângulo dos subsistemas ‘economia’ e ‘Estado’, as interações com o respectivo mundo da vida se realizam na forma de relações de troca ligadas paralelamente. O sistema econômico troca o salário por trabalho (como input específico), assim como bens e serviços (como output de produtos próprios) pela demanda dos consumidores. A administração pública permuta realizações organizatórias por impostos (como input específico) e decisões políticas (como output de produtos próprios) pela lealdade das massas […]. Na perspectiva do mundo da vida, essas relações de troca constituem o ponto de cristalização dos papéis sociais do trabalhador e do consumidor, de um lado, e do cliente e do cidadão de outro” (HABERMAS, 2012, v. 2, pp. 577-8).

[6] “Entre as condições iniciais fundamentais dos processos de modernização se encontra um mundo da vida amplamente racionalizado. E o dinheiro e o poder, enquanto meios, têm de estar ancorados nele, isto é, têm de ser institucionalizáveis através dos meios do direito positivo. Quando tais condições iniciais são preenchidas, é possível a diferenciação dos sistemas econômico e administrativo, que se relacionam entre si e mantêm intercâmbio com seu respectivo entorno através de meios de controle” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 691).

[7] “Esse fundamento econômico decisivo – a ‘separação’ entre o trabalhador e os recursos empresariais objetivos: os meios de produção na economia, os recursos bélicos no exército, os meios administrativos objetivos na administração pública, os instrumentos de pesquisa no instituto universitário e no laboratório, os recursos financeiros em todos esses casos – é fundamento decisivo comum aos mecanismos estatais modernos, militares, políticos e culturais, e à economia capitalista privada” (HABERMAS, 2012, v. 1, p. 386).

[8] “Um caminho de modernização capitalista se abre quando o sistema econômico assume a liderança da sociedade como um todo, desenvolvendo uma dinâmica de crescimento própria. Ora, o caminho de modernização passa a ser outro quando o sistema de ação administrativo adquire uma autonomia semelhante em relação ao sistema econômico, na base de uma estatização dos meios de produção e do domínio de um único partido institucionalizado” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 691).

[9] Os componentes do mundo da vida, “que podem ser diferenciados por esses meios, tendem a se afastar de um mundo da vida transformado em mero entorno do sistema. Por isso, na perspectiva do mundo da vida, a transposição do agir para meios de controle aparece não somente como um desafogo tendo em vista os riscos e o ônus da comunicação, mas também como um condicionamento de decisões em espaços contingenciais ampliados e, nesse sentido, como uma tecnicização do mundo da vida” (HABERMAS, 2012, v. 2, p. 331).

Referências:

HABERMAS, Jürgen. Para a reconstrução do materialismo histórico. Trad. Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

______________. Direito e Democracia: entre faticidade e validade. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. 2ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. 2 v.

______________. Teoria do Agir Comunicativo. Trad. Paulo Astor Soethe. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. 2 v.

PINZANI, Alessandro. Habermas. São Paulo: Artmed Editora, 2009.

VELASCO ARROYO, Juan Carlos. Para Leer a Habermas. Madrid: Alianza Editorial, 2003.

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