HANNAH ARENDT – BANALIDADE DO MAL

Hannah Arendt nasceu em Hanôver, Alemanha. Por ser de origem judaica, a cientista política teve que fugir pra Paris em 1933, por causa da ascensão do nazismo. Quando os nazistas ocuparam a França, Arendt fugiu então para Nova Iorque, em 1941. Desde sua fuga para Paris, Arendt considerou-se apátrida, uma pessoa que perde a sua pátria e nacionalidade por conta de conflitos políticos. Essa condição inclusive vai influenciar muito as suas obras.

Adolph Eichmann, foi um dos arquitetos do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Quem o vê pela primeira vez não percebe em sua expressão os horrores praticados por Eichmann, afinal, para a pensadora Hannah Arendt, que acompanhou o julgamento do nazista, Eichmann não teria cometido atrocidades por causa do ódio contra os judeus, mas sim porque seguiu ordens de forma irrefletida, isentando-se de culpa pelos efeitos de seus atos. Para Arendt, o nazista Eichmann era uma pessoa medíocre, que almejava um alto cargo por meio de um sistema político autoritário e entrou para a Gestapo somente para ganhar dinheiro.

Arendt conclui que, enquanto Adolf Hitler se ligava ao mal radical, pois tinha ódio contra os judeus e suas ações fundamentavam tal ódio, Eichmann, por sua vez, era ligado ao mal banal, já que aqui o mal não advém do desejo de fazer o mal, mas sim porque as pessoas falham em seu pensamento e julgamento. O que Arendt traz de novo é a ideia de que os seres humanos são capazes de realizar atrocidades sem ter motivações malignas. Isso seria possível por causa do processo de massificação das sociedades, da industrialização e da instrumentalização técnica das decisões humanas em nosso tempo. O mal é analisado então por Arendt pelo viés político, não pelo viés moral. Assim, sistemas políticos opressivos tiram proveito dessa disposição que as pessoas têm para tais falhas no pensar e no julgar, fazendo com que os indivíduos pratiquem certos atos que seriam considerados impensáveis fora do contexto de um regime totalitário.

Eichmann, que era o responsável por organizar sistematicamente o envio do transporte de judeus para os campos de concentração, apresentou como defesa a afirmação de que ele estava apenas seguindo ordens e realizando o seu trabalho, e que ele não tinha ódio contra os judeus, pois simplesmente viu no exército uma possibilidade de carreira melhor do que de vendedor autônomo, o que ele era antes de se alistar para o partido nazista. Assim, Eichmann não praticou o mal por ambição, ódio ou doença psíquica, mas sim porque ele foi incapaz de pensar. Os indivíduos tecnificados e burocratizados pelos regimes totalitários acabam se sentindo sem poderes e submissos, acatando as ordens dos superiores sem reflexão alguma e, consequentemente, sem conseguir pensar acerca das consequências de suas ações, retirando a sua capacidade de questionar coisas como: “não, isso eu não posso”. Além disso, quando a pessoa se torna incapaz de pensar, ela também se priva de ter responsabilidade, pois pratica sua ação em conformidade com uma lógica externa e retira de si a responsabilidade por seus atos, já que não reflete sobre o sentido de sua ação. Desse modo, o indivíduo também perde a capacidade de julgamento, já que aquele que pratica o mal banal segue os procedimentos técnicos e burocráticos de forma heterônoma, deixando de exercer a sua ação como alguém possuidor de vontade própria.

Para a cientista política, os sistemas totalitários passam a considerar a sociedade somente em seu aspecto biológico, retirando de circulação qualquer instituição social ou vínculo humano que abrigasse em si a solidariedade e a empatia, como, por exemplo, família, arte e sindicatos. O totalitarismo consegue tal objetivo ao tornar o ser humano um ser solitário e reduzido ao seu aspecto animal, além de padronizar as massas.

Arendt também nos lembra que a noção da banalidade do mal não retira o horror das ações maléficas. Quando a gente recusa em ver como monstros as pessoas que realizam atos terríveis, trazemos essas ações mais perto do nosso cotidiano, fazendo com que a gente comece a considerar o mal como algo da qual todos nós somos capazes de realizar. Afinal, segundo Arendt, existem muitas pessoas medíocres no mundo, tal como foi Eichmann, pessoas essas que são incapazes de refletir sobre suas ações. Portanto, Arendt diz que devemos sempre estar precavidos quanto às falhas dos regimes políticos, inclusive nos precaver quanto às falhas de nossos pensamentos e julgamentos. Indico aqui o excelente filme “Hannah Arendt – Ideias Que Chocaram o Mundo”, para quem quiser saber mais sobre a vida da filósofa Hannah Arendt e sobre a sua participação no julgamento de Eichmann.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

BUCKINGHAM, Will et al. O livro da filosofia. Tradução de Douglas Kim. São Paulo: Globo, 2016.

https://www.megacurioso.com.br/fotografia/101739-judeu-cria-fotos-chocantes-do-holocausto-com-imagens-de-turistas-sem-nocao.htm

https://revistacult.uol.com.br/home/violencia-e-banalidade-do-mal/

https://mundoeducacao.uol.com.br/biografias/hannah-arendt.htm

http://www2.univem.edu.br/jornal/materia.php?id=455

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