INDÚSTRIA CULTURAL

A Escola de Frankfurt foi fundada em 1924, na cidade de Frankfurt, Alemanha, por Félix Weil. Antes cogitou-se o nome Instituto para o Marxismo, mas optaram por Instituto para a Pesquisa Social, pois seus colaboradores não se prenderam somente às tendências do pensamento de Marx e do marxismo. O foco da escola estava na pesquisa da história do movimento trabalhista e do socialismo. Horkheimer se torna diretor em 1931 e fez com que a primazia do Instituto deixasse de ser a economia e passasse a ser a Filosofia. As pesquisas visaram o desenvolvimento de uma pesquisa social que buscava analisar a sociedade como um todo, que tendia a examinar as relações que ligam reciprocamente os âmbitos econômico, histórico, psicológico e cultural. Com as perseguições do nazismo, o instituto foi fechado e os pesquisadores fugiram, primeiramente para Genebra, depois para Paris e finalmente para Nova Iorque. Com o final da 2ª Guerra Mundial, Horkheimer e Adorno voltaram para Frankfurt e reabriram o Instituto para a Pesquisa Social.
A teoria crítica foi o nome dado ao conjunto de estudos e proposições elaborados pelos investigadores da Escola de Frankfurt, influenciados por Marx, Freud, Hegel, Kant, Nietzsche e Schopenhauer. Tal teoria consolida-se como uma perspectiva mais crítica à ciência, ao pensamento positivista, à sociedade industrial e à cultura, a partir de uma avaliação da construção científica e do papel ideológico que as ciências estariam prestando ao sistema capitalista. Por isso, os pesquisadores da Escola de Frankfurt buscavam um caminho inverso ao das disciplinas setoriais, que estariam desempenhando função de manutenção da ordem social existente, se utilizando dos pressupostos marxistas e da psicanálise, na análise das temáticas novas que as dinâmicas sociais da época configuravam – o totalitarismo, indústria cultural, numa preocupação com a superestrutura ideológica e a cultura. Não se pode dizer que o tema dessa corrente sejam os meios de comunicação de massa, mas que, dentre os vários assuntos abordados por essa escola, os mais próximos a esse tema seriam os relativos à indústria cultural, marcados pelo enfoque da manipulação, a partir da criação de estados mentais favoráveis à manipulação. A pesquisa social é a teoria da sociedade como um todo, uma teoria posta sob o signo das categorias da totalidade e da dialética, e dirigida ao exame das relações existentes entre os âmbitos econômicos, psicológicos e culturais da sociedade contemporânea. Por isso é que a teoria crítica deve fazer emergir as contradições fundamentais tanto do capitalismo quanto do comunismo, sendo uma compreensão totalizando e dialética da sociedade e dos mecanismos da sociedade industrial avançada, para promover uma transformação racional do homem e da sociedade.
Outro conceito desenvolvido pelos pesquisadores da Escola de Frankfurt foi a razão instrumental, que seria a degeneração da racionalidade humana. É a degradação, a subversão da racionalidade iluminista, que falseia o projeto de emancipação do ser humano e transforma-o em instrumento do capital. A razão instrumental não emancipa, mas escraviza, pois é lacaia do poder e do dinheiro. Essa razão não nos dá mais a capacidade de estabelecer verdades objetivas, ao contrário, afunda-nos na obscuridade de uma sociedade em que o foco orbital é o consumo predatório e desenfreado. Esse tipo de razão é, ao mesmo tempo, instrumento e instrumentalizante, pois está a serviço do capitalismo superdesenvolvido e instrumentaliza o ser humano e suas produções, põe ambos a serviço do grande capital. A razão instrumental não nos dá mais verdades objetivas e universais às quais possamos nos agarrar, mas somente instrumentos para objetivos já estabelecidos. Não é ela que fundamenta e estabelece o que sejam o bem e o mal, como base para orientarmos nossa vida, quem decide sobre o bem e o mal agora é o sistema, ou seja, o poder. Para Adorno e Horkheimer, a razão iluminista se tornou uma razão instrumental a serviço do capital e de governantes autoritários. Essa racionalidade funcional está presente em todas as esferas sociais, trazendo consequências que matam a criatividade e transformam o homem em coisa, objeto, mercadoria, mão-de-obra, que podem ser usados. A esfera que mais se nota a coisificação reinante do homem é a da CULTURA.
E é aqui que entra o conceito de Indústria Cultural, no qual agora a cultura (exemplo, as obras de arte, a música, o cinema) está sendo produzida em massa, e o resultado é uma Indústria Cultural, que fabrica os bens culturais que serão levados a todos os homens de forma a torná-los uma massa amorfa e consumidora de um mesmo produto, produto este que leva consigo os ideais da classe dominante. A partir da Segunda Revolução Industrial no séc. XIX as artes foram submetidas a uma nova servidão: as regras do mercado capitalista e a ideologia da indústria cultural, que se baseia na ideia e na prática do consumo de ‘produtos culturais’ fabricados em série. “Indústria cultural” é um conceito desenvolvido por Adorno e Horkheimer, no livro Dialética do esclarecimento. As obras de arte acabam se tornando mercadorias para serem consumidas e não para ser conhecido e superado por novas obras. Com a massificação da indústria cultural, as artes perdem 3 de suas principais características: (1) de expressivas, tornaram-se reprodutivas e repetitivas; (2) de trabalho da criação, tomarem-se eventos para consumo; (3) de experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo consumo. Na indústria cultural as obras caras e raras são destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas, formando uma elite cultural, e há obras baratas e comuns destinadas à massa, que é um agregado sem forma, sem rosto, sem identidade e sem pleno direito à Cultura. A indústria cultural vende cultura. Para vende-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que já sabe, já viu, já fez. Massificar é banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos.
A Indústria Cultural possui certas lógicas, a saber, primeiro, ela serve para controlar o horário livre dos operários para que não se organizem e não pensem “besteiras”, controlando-os mesmo em seus horários de lazer. Por segundo, a Indústria Cultural também serve para garantir que o trabalhador não seja criativo, fazendo consumir uma arte pronta, já que não criou e nem participou da criação, afinal, a arte é uma práxis, pois o homem, ao realizar, fabricar e produzir a vida pela sua criatividade, imaginação, conhecimento, técnica e linguagem, aprofunda-se em seu conhecimento próprio, amplia sua visão de mundo e transforma-se ao transformar a natureza, e tal criatividade morre com o advento da Indústria Cultural. Uma terceira lógica seria a de que a Indústria Cultural não permite a associação e discussão dos operários, porque eles poderiam notar as contradições do sistema em que trabalham. Além disso, ela também serve para entregar o dinheiro que o trabalhador ganha de volta aos patrões, fazendo-os consumir produtos e serviços que estão nas mãos dos proprietários de cinema e lojas, por exemplo. A Indústria Cultural também faz com que o indivíduo não possua senso crítico, para não articular greves, nem sindicatos e nem sentir vontade de participação política, além de fazer o trabalhador consumir produtos que nada têm a ver com a arte (sabonetes, roupas, sapatos e acessórios que os artistas de um espetáculo usam na peça). Para concluir, podemos dizer que a indústria cultural define a cultura como lazer e entretenimento, diversão e distração, de modo que tudo o que nas obras de arte e de pensamento significa trabalho da sensibilidade, da imaginação, da inteligência, da reflexão e da crítica não tem interesse, não vende.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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