KANT – CRITICISMO

Kant, em seu livro nomeado Crítica da Razão Pura, vai realizar na filosofia aquilo que ele chamou de Revolução Copernicana, já que assim como Copérnico tirou a Terra do centro do universo e colocou o sol no seu lugar, alterando o geocentrismo pelo heliocentrismo, na assim chamada revolução científica, já abordada por nós aqui anteriormente, Kant vai fazer uma revolução na maneira de pensar, ou seja, do mesmo modo em que Copérnico troca a Terra pelo Sol no centro do sistema planetário, Kant, por sua vez, tira o objeto e coloca o sujeito como centro do conhecimento. Com isso, o filósofo Kant realiza uma quebra na bipolarização entre o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista, pois, pra Kant, a origem do conhecimento humano está tanto na sensibilidade empirista quanto no entendimento racionalista, tendo em vista que a sensibilidade irá perceber os objetos a nossa volta, dando-os ao entendimento, e este vai desenvolver a nossa capacidade de compreensão, mediante o qual os objetos são efetivamente pensados. Portanto, oconhecimento segundo Kant é a síntese entre a experiência sensível, do empirismo, e o entendimento racional, do racionalismo. Por isso, o conhecimento é a síntese, a relação entre sujeito e objeto, lembrando que é o sujeito pensante quem atribui juízo ao objeto pensado, não o contrário, por exemplo, quando uma pessoa usa os sentidos da visão e do tato para perceber o fogo em sua frente, quem constrói as razões é o sujeito pensante, que intui o calor que emana do fogo, conhecendo assim o fogo, que é o que aquece o seu corpo. Portanto, não somos nós que nos regulamos a partir dos objetos para poder ter a experiência, mas são os objetos que se regulam a partir das estruturas do sujeito que conhece, em outras palavras, o nosso intelecto não se adapta aos objetos para pensar os objetos, mas sim os objetos, quando são pensados, é que se adaptam às estruturas do nosso intelecto.

Outro ponto importante a ser levado em consideração é que, para Kant, o conhecimento só é possível ao ser humano devido a sua capacidade de situar o objeto no tempo e no espaço, pois o tempo e o espaço são as duas formas puras da intuição sensível, como princípios do conhecimento a priori. Ora, sem o tempo, não conseguiríamos definir a diferença entre o antes, o agora e o depois, pois precisamos saber orientar as coisas através do passado, do presente e do futuro, por exemplo, é através do tempo que vocês conseguem compreender o que eu falei antes, o que estou falando agora e provavelmente o que eu irei falar depois. Do mesmo modo, sem o espaço, tudo estaria bagunçado, pois não conseguiríamos definir onde cada coisa começa e onde cada coisa termina. Portanto, tempo e espaço são as condições necessárias de possibilidade do conhecimento, já que o tempo organiza interiormente o objeto e o espaço organiza exteriormente o objeto. Tudo que sentimos (sensações) é organizado por estas duas condições.

Outra questão importante que Kant nos coloca é: por que conhecemos? Para o filósofo, conhecemos porque o conhecimento pode ser extraído a partir do juízo analítico a priori, do juízo sintético a posteriori e o juízo sintético a priori. Lembrando que “a priori” significa “antes da experiência” e “a posteriori” significa “depois, posterior a experiência. Vamos ver aqui o que cada um desses juízos significa:

No juízo analítico a priori, o predicado está incluído na essência ou definição do sujeito, por isso não há novidade, pois tudo já está definido pelo próprio sujeito. Exemplo, na expressão “Todo triângulo tem 3 lados”, o predicado “tem 3 lados” já faz parte da essência de todo triângulo, por isso, não precisamos ter uma experiência com todos os triângulos que existem no universo para saber que todo triângulo precisa necessariamente ter 3 lados, afinal, se ele tivesse mais ou menos lados, ele seria qualquer outra forma geométrica, menos um triângulo.

Já no juízo sintético a posteriori, o predicado acrescenta algo à compreensão do sujeito, pois podemos adicionar dados novos para o mesmo sujeito. Exemplo, na expressão ”o sofá é de couro”, o predicado “é de couro” acrescenta algo novo ao sujeito sofá, pois o sofá pode ser feito de outros materiais, como linho ou veludo, por exemplo.

Por fim, temos o juízo sintético a priori, no qual o predicado acrescenta dados novos sem precisar passar por experiência física. Exemplo, na soma 7 bilhões mais 5 bilhões é igual a 12 bilhões, sabemos definir o resultado sem precisar contar esses valores um por um, através de uma experiência de contar com objetos ou com os dedos, por exemplo (o que seria muito cansativo também, convenhamos né), então perceba que o predicado “12 bilhões” não está incluso no sujeito “7 bilhões mais 5 bilhões”, mas sabemos adicionar dados novos, a saber, que o resultado de tal soma é 12 bilhões, sem precisarmos ter uma experiência empírica para isto.

Desse modo, podemos perceber que o conhecimento pode ser tanto fruto de um conhecimento racional, como é o caso do juízo analítico a priori, quanto ser fruto de um conhecimento empírico, como é o caso do juízo sintético a posteriori, quanto também de ambas as partes, racionalismo e empirismo, como é o caso do juízo sintético a priori.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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