KANT – CRITICISMO

Assim como Copérnico tirou a Terra do centro do universo, Kant vai fazer uma revolução na maneira de pensar. Kant iniciou sua filosofia influenciado pelo racionalismo, mas, ao ler Hume, despertou de um sonho dogmático, quer dizer, Hume fez Kant ver que os conceitos da metafísica tradicional (substância, acidente, essência, causalidade) nada mais eram que ideias retiradas do hábito, dos costumes, e eram vazios de conteúdo.

Criticismo é uma tendência filosófica que busca as condições de validade e os verdadeiros limites e extensão do conhecimento humano, procurando as condições para o uso correto e justo da razão em sua forma pura, estabelecendo as condições de possibilidade de conhecimento.

“O criticismo sustenta que a origem do conhecimento humano está na sensibilidade e no entendimento. A primeira intui os objetos, dando-os ao segundo, mediante o qual são efetivamente pensados” (GARCIA; VELOSO, 2007, p. 96).

Kant supera o racionalismo (sujeito como fonte do conhecimento) e o empirismo (objeto como fonte do conhecimento), portanto, há uma quebra da bipolarização entre racionalismo e empirismo.

O conhecimento é síntese entre experiência sensível (empirismo) e entendimento racional (racionalismo). O processo do conhecimento é resultado de uma interação entre elementos estruturais do sujeito e o mundo objetivo. As estruturas do sujeito sem o conteúdo sensível operam no vazio, e os dados objetivos sem as estruturas que os ordenem não têm sentido.

Porém, nessa complexa interação entre sujeito e objeto, quem ocupa foco orbital é o primeiro, e não o segundo (Copérnico/Kant).

Não somos nós que nos regulamos a partir dos objetos para experiênciá-los, mas são eles que se regulam a partir das estruturas do sujeito cognoscente. Isso acontece com nosso intelecto, que não se adapta aos objetos para pensá-los, mas os objetos, quando pensados, adaptam-se às estruturas de nosso intelecto.

“A capacidade de receber representações (receptividade), graças à maneira como somos afetados pelos objetos, denomina-se sensibilidade. Por intermédio, pois, da sensibilidade, são-nos dados objetos e só ela nos fornece intuições; mas é o entendimento que pensa esses objetos e é dele que provêm os conceitos” (KANT, 2001, p. 87).

Como é possível conhecer?

Através da capacidade de situar/organizar o objeto no tempo (interiormente) e no espaço (exteriormente).

O espaço é a forma do sentido externo, à qual deverão estar sujeitas todas as representações sensíveis dos objetos. Já o tempo é a forma do sentido interno, ou seja, que possibilita o aparecimento interno do dado sensível.

Tudo que sentimos (sensações) é organizado por estas duas condições necessárias de possibilidade do conhecimento.

“Há duas formas puras da intuição sensível, como princípios do conhecimento a priori, a saber: o espaço e o tempo” (KANT, 2001, p. 89).

O espaço e o tempo não são realidades absolutas presentes nos objetos, mas modos e funções do próprio sujeito. O espaço e o tempo ordenam a multiplicidade desconecta e caótica fornecida pela sensação.

Como você vê determinado objeto sem o tempo e o espaço?

Sem o tempo, você não poderia dizer se está vendo-o ontem, hoje ou amanhã e não pode dizer em qual momento o objeto existe.

Sem o espaço, você veria o objeto em todos os lugares, ele seria deformado, não teria tamanho exato, nem forma.

Portanto, pode-se dizer que o sujeito, quando afetado por algo no mundo, tem o que se chama de uma sensação que só se dá no campo espaço-temporal.

Fenômeno e Noumeno

Podemos conhecer o fenômeno do objeto, ou seja, aquilo que aparece, e não o noumeno (do grego: aquilo que é de fato).

Fenômeno trata da realidade, mas uma realidade que somente pode ser encontrada na relação entre as formas a priori do sujeito e os dados sensíveis.

Exemplo: dentro de um carro com insufilme, vemos o exterior escuro, opaco. É o objeto que nossos sentidos conseguem construir. Porém, obviamente, lá fora é mais claro.

“O efeito de um objeto sobre a capacidade representativa, na medida em que por ele somos afetados, é a sensação. A intuição que se relaciona com o objeto, por meio de sensação, chama-se empírica. O objeto indeterminado de uma intuição empírica chama-se fenômeno” (KANT, 2001, p. 87).

A razão não pode extrapolar os limites da experiência possível. Apesar de o sujeito ser o centro do processo de conhecimento, sem os dados da experiência, não há como movimentar, afetar as estruturas subjetivas, impeli-las a captar dados, em seguida, organizar, classificar, julgar, enfim, pensar o universo fenomênico. De outra forma, em todo conhecimento construído pelo homem, intervêm as formas a priori do sujeito, sem as quais nenhuma experiência e, por extensão, nenhum conhecimento seria possível.

Resumindo, o sujeito pode ser o foco orbital do processo de conhecimento, mas, sem a experiência com os objetos, nada acontece.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. 3ª edição. Florianópolis: Sophos, 2011.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 5ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

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