MAQUIAVEL – O PRÍNCIPE

Se na Idade Média nós vimos a união entre a Igreja Católica e o Estado, por meio de um direito divino, na Idade Moderna começa a luta para separar a Religião da Política, separar a fé das questões políticas, por meio do direito natural. Nessa época, que começou a mais ou menos uns 500 a 400 anos, uma classe social começou a querer sua independência, a saber a burguesia, grupo de pessoas que viviam nos burgos, que significa cidades. Tais mudanças econômicas e sociais foram o prenúncio das mudanças políticas do período moderno.

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, na península itálica. Sempre foi interessado nas questões políticas, o que fez com que escrevesse um dos livros mais conhecidos sobre filosofia política na modernidade, que leva o nome de “O Príncipe”, que tinha por objetivo apresentar ideias sobre liderança política, já que a Itália do Renascimento não era do mesmo jeito como a conhecemos hoje, pois era bem caótica, já que a tirania imperava em 17 pequenos principados, que eram governados de modo autoritário por casas reinantes sem tradição ou de direitos duvidosos. Por isso, a ilegitimidade do poder político acabou gerando situações de crise e instabilidade permanente, o que Maquiavel pretendia combater em sua obra política, afinal, o objetivo principal da filosofia de Maquiavel era unificar a Itália, apresentando práticas políticas que pudessem servir como guia para que o político de virtú trouxesse tal união para a Itália.

Pro filósofo Maquiavel, a política deve ser autônoma e laica, pois a política deve se emancipar da ética religiosa, pois deve buscar uma linguagem é métodos próprios. Autonomia é a condição daquele ou daquilo que tem sua própria organização legal interna e segue suas próprias leis, e laico é o que não possui dimensão religiosa, por exemplo, o Brasil é por lei um país laico, pois a religião não pode interferir na política e a política deve garantir a liberdade religiosa. Além disso, ao agir, o governante tem de pensar exclusivamente no objetivo central da política, que é a obtenção e a manutenção do poder a qualquer custo, com elementos que constituem a condição e prática humanas, afinal, o jogo político tem suas próprias leis, que devem ser conhecidas compreendidas e seguidas, e, por ser independente dos padrões ético-religiosos, a política constitui como categoria autônoma e laica, capaz de governar-se por si mesma. Isso foi muito bem resumido na expressão “Os fins justificam os meios”, que, apesar de não ter sido criada pelo filósofo, diz muito bem sobre qual deveria ser a atitude do político de virtú, que é a de que o príncipe deve se utilizar de todos os meios cabíveis, inclusive os não éticos, para a obtenção e manutenção do poder político, para que a Itália não ficasse desunida novamente. Foi de tal ideia que surgiu a famosa expressão “maquiavélico”, que, de forma estereotipada, diz respeito a uma pessoa que é má e ardilosa, mas que pode ser entendida também como uma pessoa fria e calculista.

Maquiavel também inaugurou um pensamento filosófico realista e utilitarista, pois parte da realidade histórica dos fatos para operar na própria história, sempre se pautando por aquilo que tem mais utilidade para a obtenção e manutenção do poder.

Para o filósofo, o príncipe virtuoso é o único capaz de colocar em prática o novo paradigma político estruturado em seu livro, e, para isso, o político deve possuir a virtú para controlar a fortuna:

Fortuna significa “acúmulo de bens” ou destino, e sua origem vem da deusa romana chamada Fortuna, que é quem move a roda da sorte, ou, a roda da fortuna. Para Maquiavel, fortuna é entendida como “ocasião”, “acaso”, “sorte”, ou seja, é o contexto sociopolítico a ser dominado. Portanto, para praticar uma boa ação, o governante deve se precaver para aguardar a ocasião oportuna, para não depender demais da fortuna, tendo em vista que ela é instável, por isso ele deve aproveitar a sorte das circunstâncias, observando atentamente o curso da história. Assim, o príncipe deve dominar o curso aleatório do destino e tomar as rédeas da situação.

Virtú, por sua vez, significa valor, competência, força, coragem, astúcia. Governantes de virtú são aqueles que possuem a habilidade de realizar grandes obras, com o talento de perceber o jogo de forças da política para então agir com ímpeto, possuindo assim o empreendimento necessário para tornar-se construtor, não vítima dos acontecimentos históricos. De acordo com Maquiavel, a virtú deve ser colocada em prática sem levar em consideração os valores cristãos, devido a falta de compatibilidade entre esses valores e a política, por isso, para Maquiavel, a política deve ser autônoma e laica, ou seja, deve ser realizada com lógica própria e sem a influência da religião no âmbito político.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

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