MITOS MODERNOS – GODZILLA E KING KONG

O mito é a forma mais antiga de crença, na qual os povos tentam encontrar respostas para os acontecimentos naturais por meio de seres e acontecimentos sobrenaturais. Na maioria das vezes o mito serve para afugentar a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido, do perigo e da morte. A mitologia se fundamenta na crença em forças superiores, que protegem ou ameaçam, recompensam ou castigam.

Em nossos tempos, essas definições de mito persistem nos contos populares, no folclore, na literatura e nas artes em geral, em especial no cinema, já que abordarei do Godzilla e do Kong neste texto. Devo lembrá-los que tratarei aqui de uma interpretação pessoal filosófica acerca das personagens dos filmes, e que, por isso, pode ser que minha posição sobre o assunto não esteja totalmente em sintonia com o verdadeiro significado dos filmes, e que, se eu utilizei o Godzilla e o Kong como exemplos, é para ilustrar como funcionaria o conceito de mito em nossos tempos. Podemos dizer que o Godzilla representa o controle dos avanços científicos, já o King Kong representa a manutenção do equilíbrio ambiental. Se os deuses representavam uma força sobrenatural que controlavam o mundo e o homem, a noção de deuses, ou titãs, do Monstroverso, serve para trazer o equilíbrio científico e natural. Vale destacar que no próprio Monstroverso há toda uma mitologia que remonta há milhares de anos, na qual os titãs já habitaram a superfície da Terra mas que tiveram que se recolher para o núcleo da Terra depois que os níveis de radiação diminuíram na superfície.

O Godzilla e o King Kong surgem como deuses, ou, como eles falam no monstroverso, titãs necessários para controlar os desastres ambientais, as guerras e a destruição que os seres humanos causam ao planeta, representados pelos outros titãs. No caso do Godzilla, este e outros kaijus acordam depois que os seres humanos explodem as bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, pois essas explosões chamam a atenção dos kaijus, que se alimentam da energia nuclear. Esse medo latente pelo poder de destruição que a ciência pode causar acaba criando no imaginário humano a noção de ser, ou deus, que é capaz de afugentar a angústia que o ser humano possui acerca do avanço descontrolado da ciência moderna. Portanto, Godzilla surge como a representação mítica da contenção do avanço científico desenfreado, servindo como uma criatura mitológica que serve para proteger a humanidade da destruição causada pelas guerras, que usam a ciência para destruir a Terra e a humanidade.

O Kong, por sua vez, é representado como um deus para os nativos que viviam na Ilha da Caveira, protegendo-os das ameaças que rondavam a ilha. King Kong aparece como uma espécie de vingador da natureza, para conter a exploração sem fim que o ser humano causa ao meio ambiente. Por isso que, nos primeiros filmes, King Kong era capturado para servir como uma atração, simbolizando o poder de controle que o ser humano tinha sobre a natureza. Já no último filme, King Kong se apresenta como um deus protetor que ameaça e castiga a todos aqueles que tentam destruir o mundo natural.

Se os mitos serviam como modo de explicação dos acontecimentos naturais, quando o ser humano não compreendia como as leis da natureza funcionavam, os mitos modernos servem como modo de salvação da humanidade, na qual os deuses surgem para proteger os humanos contra tudo aquilo que é capaz de destruí-los, no caso, o avanço científico sem escrúpulos e sem ética, as guerras e a destruição ambiental através da exploração massiva dos recursos naturais.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referência:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

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