O QUE É O MITO? DIFERENÇA ENTRE MITO E FILOSOFIA

Algo que sempre me intrigou, nas aulas de filosofia que ministrei, foi o fascínio que os meus alunos tinham com a mitologia, mesmo sendo esse o primeiro assunto a ser abordado no primeiro ano do ensino médio, mas que até no terceiro ano do ensino médio muitos alunos ainda me perguntavam se eu voltaria a falar sobre o assunto. Não é pra menos, afinal, a ideia de um mundo encantado sempre chamou a atenção das pessoas desde a infância, pois é na infância que nos deslumbramos com as novidades que o mundo a nossa volta nos proporciona, mas, como ainda não temos uma definição solidificada sobre como funciona a realidade, e nem uma educação formalizada sobre o mundo, acabamos então por deixar a imaginação e a criatividade rolarem soltas, criando assim um encantamento da realidade.

Esse encantamento do mundo, que acompanhou a maioria das antigas civilizações, se não todas, é chamado de Mito. Mas o que é o Mito? Sua etimologia vem do grego Mythos, que pode ser traduzido como “palavra expressa” ou “narrativa”. O mito foi muito difundido em culturas de tradição oral, que transmitiam o conhecimento mítico verbalmente, muitas vezes sendo propagado antes mesmo da invenção da escrita daquela cultura. Para exemplificar, tomemos a mitologia grega, que difundia os seus mitos através dos poemas recitados em praça pública pelos poetas, entre os mais conhecidos, Homero e Hesíodo, que eram muito venerados na cultura grega. Homero é o autor da Odisseia e da Ilíada, esta que conta a história da Guerra de Troia, que lembramos até hoje através dos famosos ditados “calcanhar de Aquiles” e “presente de grego”, este último por causa do Cavalo de Troia. Hesíodo, por sua vez, difundiu a Teogonia, que significa “origem dos deuses” em grego, e, como o próprio nome já diz, conta a história do surgimento dos deuses gregos e do mundo tal qual os gregos conheciam. Iremos retomar esses assuntos dos poetas gregos e da mitologia grega em vídeos futuros.

O mito foi uma das primeiras tentativas que o ser humano encontrou para tentar entender o universo, os fenômenos naturais e o próprio ser humano, além de ter sido a forma mais remota de crença, pois o mito se utilizava do mundo sobrenatural para tentar compreender o mundo natural. Portanto, o que conhecemos hoje por mito era antigamente entendido como religião, tendo em vista que os mitos relatavam a verdade para cada povo, uma verdade que não precisava ter comprovações, pois fundamentava-se na fé, expressando-se como explicação verdadeira da realidade, por meio dos deuses, deusas e seres mitológicos. Para os povos antigos, os mitos personificavam os elementos da natureza, os fenômenos naturais, as virtudes e os defeitos humanos.

Porém, algo que devemos deixar claro é que não podemos confundir mitologia com filosofia, pois, apesar da filosofia estudar a mitologia, o inverso não acontece, afinal, podemos debater filosoficamente acerca da função dos mitos e da importância dos mitos, mas a mitologia tem por objetivo apenas o estudo dos mitos. A diferença entre mitologia e filosofia está na ideia de que, enquanto a mitologia se usa de seres sobrenaturais para explicar os fenômenos naturais, por meio da crença, apresentando-se como uma verdade inquestionável, a filosofia, por sua vez, ocupa-se com o rigor do conceito, levantando questionamentos acerca de tudo, através do diálogo e de argumentações lógicas e racionais, utilizando-se, portanto, da razão como fonte para a busca do conhecimento.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referência:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

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