RACIONALISMO – EMPIRISMO – CRITICISMO

As tendências filosóficas desenvolvidas durante a Idade Moderna iniciaram o debate sobre a epistemologia que serve como pilar para a ciência moderna, tendo como pilar principal a questão de como alcançamos o conhecimento. Essas tendências são: o racionalismo, o empirismo e o criticismo.

No racionalismo, a razão é a principal faculdade humana e a única fonte de um conhecimento seguro. Portanto, para os racionalistas, os sentidos não são uma fonte segura para o conhecimento, pois é em nosso espírito que está a nossa racionalidade, por isso, a razão é a única condição de possibilidade do conhecimento.

Um dos filósofos racionalistas mais conhecidos foi o filósofo René Descartes. Esse filósofo estava decepcionado com o ensino recebido, a saber, a filosofia escolástica, uma filosofia desenvolvida durante a idade média, e que já não era mais capaz de conduzir a uma verdade segura, segundo Descartes. Portanto, o filósofo estava em busca da verdade fundamental para um conhecimento seguro. Por isso, Descartes vai desenvolver a chamada dúvida metódica, um procedimento metódico que traz a ideia de que precisamos duvidar de tudo quanto for possível, com a intenção de chegar a algo que seja, de fato, indubitável, ou seja, que não possua dúvida alguma. Para isso, precisaríamos partir de que tudo seja falso para encontrar algo indubitável, que seja isento de dúvidas, como duvidar dos nossos sentidos, pois eles podem nos enganar, como uma ilusão de ótica, por exemplo, e também pelo conceito de gênio maligno, desenvolvido por Descartes, que fala acerca da existência de um ser extremamente poderoso que, sempre que a gente tente somar 2+3, esse gênio maligno vai e coloca 5 em nossa mente somente para nos enganar, fazendo-nos duvidar até mesmo das verdades matemáticas. Porém, quando pensamos que está tudo perdido e que não conseguiríamos chegar a um conhecimento seguro, Descartes percebe então que podemos duvidar de tudo, mesmo do fato de estarmos duvidando, porém, não podemos duvidar do seguinte: se duvido, penso e, se penso, eu sou alguma coisa, por isso, se eu penso, eu existo. Esse pensamento foi muito bem expresso em uma das mais famosas frases da filosofia, “Cogito ergo sum” (“penso, logo existo” em latim). Este é o Cogito Cartesiano, o princípio fundamental do qual devemos partir em direção a um conhecimento seguro, pois esta seria a autoevidência existencial do sujeito pensante, que possibilita a construção de todo o conhecimento.

Partindo da verdade indubitável “penso, logo existo”, podemos então aplicar o método cartesiano para alcançarmos o conhecimento de algo. No seu livro Discurso do Método, Descartes apresenta o que ele considera ser as regras para o entendimento de algo, para a ciência de algo, sendo eles em 4 passos. O primeiro passo é a evidência, ou seja, se eu quero conhecer algo acerca do mundo, devo aceitar apenas o evidente, aquilo que se mostra claramente para mim. O segundo passo é a análise, ou seja, devo dividir o problema em quantas partes forem necessárias, pois assim será mais fácil aplicar a terceira parte, a síntese, onde eu vou organizar, classificar e abordar os problemas do mais simples ao mais complexo. Por fim, eu realizo o quarto passo, que é o controle, onde eu faço revisões constantes para saber de uma forma mais clara se cheguei ao conhecimento verdadeiro ou não. O método cartesiano será um dos pilares centrais na qual a ciência moderna irá se fundamentar, e é a partir dessa metodologia que a ciência moderna começará a se fragmentar e apresentar especializações dos saberes diversos, como a biologia, a física, a química, e suas diversas subáreas também.

Outra tendência filosófica a se desenvolver na modernidade é o Empirismo, que apresenta a ideia de que a única fonte possível para o conhecimento humano é a experiência por meio dos sentidos. Portanto, contrário aos racionalistas, que apresentavam a ideia de que os sentidos nos enganavam na busca por conhecimento, para os empiristas, a experiência desempenha um papel central na aquisição e na estruturação do conhecimento. Como diria o filósofo empirista John Locke, o ser humano é uma tábula rasa que, a partir da experiência, é preenchido, ou seja, o ser humano nasce como se fosse uma folha em branco, e seria somente através de sua experiência por meio dos sentidos é que ele conseguiria conhecer o mundo a sua volta.

Um dos filósofos empiristas mais conhecidos é o Francis Bacon, que nos apresenta a condição de que, para que a gente alcance o conhecimento, devemos primeiro limpar a mente de todas as coisas que atrapalham a busca pelo conhecimento, aquilo que o filósofo chamou de ídolos, pois os ídolos nos limitam na busca pela verdade, e então, na medida em que nos afastamos dos ídolos, nós devemos aderir ao método experimental indutivo, que é a forma de conduzir o raciocínio, os experimentos e os procedimentos científicos indo do particular em direção ao geral. Ou seja, devemos partir de observações particulares acerca do fenômeno que estamos estudando, acumulando fatos, classificando eles e encontrando suas causas, pois a observação sistemática de repetições e regularidades em eventos particulares vai nos proporcionando a proposição de leis gerais, estruturando assim as leis e as teorias científicas. O método indutivo também será muito utilizado para a elaboração das teorias científicas que irão surgir durante a idade moderna, tendo em vista que muitas teorias científicas partem primeiro das observações realizadas no mundo real para então formular teorias mais abrangentes acerca dos fenômenos abordados.

Outro filósofo importante para o empirismo foi David Hume, que nos mostra que não há como o ser humano dar origem a ideias inatas, pois, na condição em que nos encontramos, somos inteiramente submetidos aos nossos sentidos. Por isso é que o filósofo Hume nos diz que “Todas as inferências derivadas da experiência são efeitos do costume e não do raciocínio”. Hume faz uma crítica à teoria da causalidade, porque, para ele, não existe a causalidade, pois a causa-efeito é produzida pela experiência que temos com os fenômenos e por nosso hábito de estabelecer ligações entre eles, afinal, temos a tendência a estabelecer certos vínculos que acreditamos serem necessários, lógicos e coerentes, mas não o são, porque a nossa mente acaba criando certas relações fenomênicas que não existem. Por hábito, acabamos estabelecendo determinados esquemas de experiências que vivenciamos no passado e que se repetem. Essa repetição fortalece a minha ilusão e a minha crença na existência objetiva da causalidade. Porém, não é porque vemos certo fenômeno se repetir do mesmo modo até hoje que isso nos dará a garantia de que isso acontecerá sempre, pois poderá chegar um momento em que um mesmo fenômeno poderá apresentar um resultado diferente do que já observamos até agora. Esse tipo de reflexão será trabalhado pelo filósofo Karl Popper, que viveu no século XX, que apresenta a ideia de que os cientistas não devem desenvolver as teorias científicas simplesmente acumulando os dados e as experiências que já se provaram verdadeiras até agora, mas devemos sim procurar por experiências e observações que tentem falsear a teoria científica, e enquanto ela conseguir ir passando pelas experiências, ela continuará sendo uma teoria científica válida.

Uma terceira tendência filosófica da modernidade foi desenvolvida pelo filósofo Immanuel Kant, o criticismo. Kant vai realizar aquilo que ele chamou de Revolução Copernicana, ou seja, assim como Copérnico tirou a Terra do centro do universo, naquilo que foi chamado de revolução científica, Kant vai fazer uma revolução na maneira de pensar, ou seja, enquanto Copérnico troca a Terra pelo Sol no centro, Kant, por sua vez, tira o objeto e coloca o sujeito como centro do conhecimento. O filósofo Kant irá realizar uma quebra na bipolarização entre o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista, pois, para Kant, a origem do conhecimento humano está na sensibilidade empirista e no entendimento racionalista. A sensibilidade percebe os objetos a nossa volta, dando-os ao entendimento, que vai desenvolver a nossa capacidade de compreensão, mediante o qual os objetos são efetivamente pensados. Portanto, o conhecimento segundo Kant é a síntese entre experiência sensível, do empirismo, e o entendimento racional, do racionalismo. Por isso, o conhecimento é a síntese, a relação entre sujeito e objeto. Ou seja, é o sujeito pensante quem atribui juízo ao objeto pensado, por exemplo, quando uma pessoa usa a sensibilidade para perceber o fogo em sua frente, quem constrói as razões é o sujeito, que intui o calor que emana do fogo, conhecendo assim o que é que aquece o seu corpo. Portanto, não somos nós que nos regulamos a partir dos objetos para poder ter a experiência, mas são os objetos que se regulam a partir das estruturas do sujeito que conhece, em outras palavras, o nosso intelecto não se adapta aos objetos para pensar os objetos, mas sim os objetos, quando são pensados, é que se adaptam às estruturas do nosso intelecto.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

GARCIA, José Roberto; VELOSO, Valdecir da Conceição. Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.

Deixe uma resposta