SIMONE DE BEAUVOIR – O SEGUNDO SEXO

Dia 08 de março é celebrado o dia internacional da mulher. De acordo com a pesquisadora Cristina Scheibe Wolff, embora essa data seja popularmente associada à morte de trabalhadoras durante um incêndio em uma tecelagem nos Estados Unidos, em 25 de março de 1911, a escolha do dia 8 de março para essa data global se deve a eventos ocorridos na Rússia, no começo do século XX. Na época, as jornadas nas fábricas de todo o mundo chegavam a 14 horas por dia, incluindo domingos, e envolviam, além dos homens, mulheres e crianças. De acordo com a pesquisadora, “muitas mulheres tinham jornadas penosas e era comum que houvesse reivindicações por melhores condições de trabalho, além do direito ao voto”. Esse cenário de exploração levou a manifestações em diversas partes do mundo. Contudo, o evento considerado o verdadeiro marco da data foi uma paralisação liderada por tecelãs russas, com apoio de metalúrgicos, em São Petersburgo. O protesto aconteceu em 8 de março de 1917 e teria sido o estopim da Revolução Russa.

Mas por que o dia internacional da mulher deve ser lembrado e celebrado? Ora, em um período como o nosso, em que, infelizmente, os casos de feminicídio são extremamente altos e que a desigualdade salarial e social entre homens e mulheres ainda se faz presente, celebrar o dia internacional das mulheres acaba se tornando um dia de luta contra a desigualdade de gênero ainda persistente no século XXI.

Outra questão que se abre nesse dia é a seguinte: afinal, o que é “ser mulher”? Para nos ajudar nessa questão, iremos nos valer aqui da filósofa francesa Simone de Beauvoir, existencialista que contribuiu muito na luta pela igualdade das mulheres. Beauvoir nasceu em Paris, em 1908, e faleceu em 1986. Também era romancista, sempre explorando temas filosóficos em suas obras, como em A Convidada e Os Mandarins. Sua obra mais famosa, O Segundo Sexo, levou a abordagem existencialista às ideias feministas, tornando-se uma das obras feministas mais importantes do século XX.

Para entender a questão sobre o que é ser mulher, devemos lembrar de como elas foram definidas no decorrer da história, já que, para Beauvoir, em O Segundo Sexo, o padrão de medida do que entendemos como mulher, e como humano, foi historicamente definida por uma visão masculina, já que foram os homens que dominaram as instituições durante boa parte da história. Por exemplo, Aristóteles igualava a humanidade plena com a masculinidade, já outros filósofos empregaram o masculino como padrão perante o qual a humanidade deve ser julgada. Ora, a maioria dos que escreveram sobre a natureza humana eram homens, por isso, eles adotaram a masculinidade como o padrão com o qual julgamos a natureza humana, por isso é que os homens definiram as mulheres segundo a diferença desse padrão, fazendo com que assim o homem fosse definido como ser humano e a mulher, como fêmea. É por conta disso que Beauvoir diz que o Eu do conhecimento filosófico é masculino por falta de oposição, e seu par binário, o feminino é, por isso, algo além, o que a filósofa chama de Outro. Enquanto o Eu é ativo e consciente, o Outro é tudo o que o Eu rejeita: passivo, sem voz e sem poder.

Beauvoir entende que é estranho julgar as mulheres somente na medida em que elas agem como os homens. Até mesmo argumentar que igualdade significa que as mulheres podem ser e fazer o mesmo que os homens é equivocada, pois essa ideia ignora o fato de que mulheres e homens são diferentes. Para compreendermos esse ponto, devemos lembrar que a filósofa Beauvoir era da formação filosófica da fenomenologia, estudo sobre como as coisas se manifestam à nossa existência, ou seja, cada um de nós construímos o mundo a partir da estrutura de nossa própria consciência, já que organizamos coisas e sentidos a partir das nossas experiências. Portanto, de acordo com a filósofa, a relação que cada pessoa tem com o próprio corpo, com os outros e com o mundo é fortemente influenciada pelo gênero sexual.

Beauvoir era também existencialista, pois nascemos sem objetivos e devemos então criar uma existência autêntica para nós mesmos, escolhendo o que queremos nos tornar. A filósofa, ao aplicar essa ideia à noção de mulher, demandou a divisão do ente biológico, a forma corporal com a qual nascem as mulheres, da feminilidade, esta que é definida pela sociedade, portanto, uma construção social. Se qualquer construção social é aberta a mudança e interpretação, então existem várias maneiras de “ser mulher”, ou seja, há lugar para escolha existencial. Na introdução de O Segundo Sexo, a filósofa apresenta essa fluidez na sociedade, parágrafo este que foi tema de uma questão no Enem e que gerou uma polêmica na época, cito para vocês: “Exortam-nos: ‘Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres’. Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; […] ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Com essa passagem, Beauvoir nos diz que as mulheres devem se libertar da ideia de que devem ser como os homens e também da passividade que a sociedade lhe atribuiu. Mesmo sabendo que viver uma existência autêntica traz mais riscos, pois traz com isso a responsabilidade pelos seus atos, ainda assim é melhor do que aceitar passivamente um papel atribuído pela sociedade, pois uma existência autêntica é o único caminho para a igualdade e a liberdade. Daí então a necessidade de sempre lembrarmos e celebrarmos o dia internacional da mulher, para que nunca nos escape da memória a importância de todos lutarmos pela igualdade e pela liberdade.

Autor: João Paulo Rodrigues

Referências:

Antoniele Luciano. Dia da Mulher: 8 de março começou com protesto de trabalhadoras russas. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/03/08/dia-da-mulher-8-de-marco-comecou-com-protesto-de-tecelas-russas.htm

 BUCKINGHAM, Will et al. O livro da filosofia. Tradução de Douglas Kim. São Paulo: Globo, 2016.

Deixe uma resposta